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Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

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Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

26 - A função social dos idosos

Durante milénios, o papel dos idosos na sociedade esteve claramente estabelecido. Eram o repositório de conhecimentos, cultura, rituais e tudo isso da respetiva comunidade. Eram também as pessoas a consultar quando ocorria um facto insólito, na esperança de que recordassem algo similar ocorrido durante a sua vida ou na dos seus antepassados e de que tivessem ouvido falar.

Mesmo após a divulgação da escrita e de sistemas organizados de educação, continuavam a ter um papel respeitado, eram eles que educavam as novas gerações não escolarizadas. E com a lentidão com que ocorriam as mudanças tecnológicas e sociais, muitos viviam e morriam sem ver nada de novo, passando, assim, a sua profissão e conhecimentos a filhos, netos ou meros aprendizes.

Ainda bem recentemente, muitas profissões e negócios passavam de pais para filhos, estranhava-se, até, quando não se criticava abertamente, quando um jovem tinha outros sonhos e partia em busca deles, deixando o que lhe estava destinado desde ainda antes de nascer.

Mas nas últimas décadas tudo isso mudou, a começar pela pirâmide etária. É que com a longevidade a disparar continuamente e havendo agora em Portugal 182 idosos por cada 100 jovens, bom, a pirâmide está a inverter-se.

Mais ainda, com a introdução contínua de novas tecnologias, a sabedoria dos idosos tende a ser cada vez mais desprezada, uma vez que nada percebem dessas “modernices” e os seus conhecimentos e princípios éticos são vistos como ultrapassados, bafientos, até.

Se estamos a falar estritamente de saber técnico e de livros, sim, não há dúvida de que há um autêntico abismo entre gerações, ou antes, vários abismos consoante as camadas etárias tidas em conta. Mas a sabedoria não se resume a isso e talvez fosse conveniente lembrarmo-nos desse detalhe.

Nos EUA há agora uma tendência crescente de pais reformados que vão trabalhar em empresas criadas pelos filhos – sim, é a inversão total do que mencionei acima. Podem nada saber de tecnologia avançada e tudo isso, mas lidam com o lado administrativo das coisas, por exemplo, fazendo uso das suas décadas de experiência. É mesmo a sinergia ideal de conhecimentos.

Na Islândia, por exemplo, advogados, banqueiros e outros com profissões bem pagas e com muita cotação social não têm o menor problema em sair aos fins de semana com pais e avós para fazerem pesca comercial ou agricultura de pequena escala.

E há muitos jovens noutros países que, em vez de se endividarem para tirarem um curso superior, preferem aprender a profissão dos pais, sejam estes eletricistas, canalizadores, carpinteiros, cabeleireiros, etc. Ou, melhor ainda, combinam estudos com essa aprendizagem, ficando assim aptos a fazer face a qualquer percalço que surja na sua profissão “de colarinho branco”.

Neste aspeto, o nosso país ainda sofre de um certo síndrome de novo-riquismo. A maioria tenta esconder origens mais humildes e muitos jovens, pelo menos até recentemente, preferiam um emprego mal pago um escritório ou loja a um trabalho manual muito melhor remunerado mas com menor estatuto.

À medida que isto for mudando, o papel dos idosos voltará a ganhar algum relevo. Mas muito depende também deles. Em vez de se encolherem e papaguearem o “já sou velho para isso”, é altura de mostrarem que existem. Mais ainda, que, como empregados, são até bem mais desejáveis do que pessoas mais novas, uma vez que trazem consigo anos de experiência, não necessariamente naquela área, mas isso é, em muitos casos, apenas um detalhe facilmente corrigível. E com os seus muitos anos de vida, têm, digamos, a cabeça bem mais assente nos ombros.

Quanto ao lado ético da influência dos idosos, duvido muito seriamente que se vá voltar ao tempo em que o Conselho de Anciãos tudo podia e tinha a última palavra em muitos assuntos – diga-se de passagem, nem sempre muito certa.

Mas isso não impede que tenham um papel a desempenhar. É que, excetuando certas noções um pouco mais radicais e que atraem a ira dos “bem-pensantes”, se nos dermos ao trabalho de os escutar podemos, certamente, retirar bastantes gotículas de sabedoria.

E aqui para nós, se tivéssemos seguido alguns desses princípios, o nosso país não estaria em melhor estado do que está? Como a política de não fazer dívidas, por exemplo.

Mas também aqui as coisas têm de mudar. Atendendo ao enorme peso percentual de idosos na sociedade e no muito que se fala deles quando convém, porque será que não estão proporcionalmente representados em partidos políticos e outros organismos? Exige-se uma quota para mulheres e está-se sempre a falar na não representatividade de minorias, mas, e os idosos?

E não me refiro a refazer o Partido dos Reformados – se calhar ainda existe – o próprio nome é um tiro no pé. É que passa a ideia de que idoso = reformado, ou seja, a pessoa não produtiva atualmente. E isso é cada vez menos verdade em muitos países, onde cada vez mais idosos, para além de se manterem a trabalhar até bem tarde, criam novas empresas e negócios, enfim, “fazem coisas”.

Não é caso raro nos EUA, por exemplo, um médico ou advogado reformados reinventarem-se como carpinteiros, agricultores (a sério, não amadores), enfim, profissões radicalmente diferentes da que sempre tiveram mas que representam a concretização de um sonho de infância ou a consequência lógica de um passatempo ou paixão.

É pois mais do que altura de os que “vão para novos” voltarem a ter uma posição a sociedade em que vivem, deixando, muito definitivamente de serem o que nunca deviam ter sido, os “velhinhos, coitadinhos”.

Para a semana: Combater a solidão. Este é um dos males mais insidiosos de quem “vai para novo”.

16 - Velhos não são descartáveis

Como todos sabemos, pelo menos ouvimo-lo à saciedade, nunca houve tantos idosos em Portugal – e não só. A proporção é, até, atualmente, de 159 idosos para cada 100 jovens e tem estado sempre a aumentar. Não vou sequer discutir o absurdo que é manter-se os 65 anos como valor para entrar na chamada terceira idade. Direi apenas que o que fazia sentido em 1960, quando a esperança de vida dos homens era de 60,7 anos e das mulheres de 66,4 deixou de o fazer agora. É que em 2020 esses valores eram de 77,7 e 83,4, respetivamente.

Mais ainda, em termos de saúde física e mental uma pessoa de 65 anos na década de 60 era bem diferente de uma com a mesma idade atualmente. Não acreditam? Pensem nos muitos atletas que continuam no auge numa altura em que já deviam ter “arrumado as botas”, nas muitas atividades, físicas e não só, que surgem quase diariamente para os tais “velhinhos coitadinhos”, essa expressão tão querida dos que dizem preocupar-se com o envelhecimento da nossa população mas que, na prática, pouco ou nada fazem.

Como disse no post “Velhos não são lixo” do meu blogue Luísa Opina, temos duas atitudes predominantes no nosso país: lastimar que não haja ocupações ou empregos para idosos, apenas por causa da sua idade, e chorar ainda mais alto quando se fala em aumentar a idade da reforma. Uma atitude esquizofrénica que não parece incomodar ninguém...

Pessoalmente, nunca entendi porque é que pessoas capazes têm de se reformar, queiram ou não, só porque chegaram à idade “certa”. Não poderiam ser reaproveitadas para outras tarefas? Caso o quisessem, claro. Por exemplo, nada impede que um cirurgião que já não tem condições físicas para continuar a operar não possa continuar a trabalhar como médico de família, por exemplo, mediante uma preparação para essas novas tarefas. E sejamos sinceros, a maior parte dos empregos atuais não exigem exatamente um tremendo esforço físico, não há pois nenhuma razão para alguém ser subitamente considerado incapaz para o fazer no dia em que atinge a mágica idade da reforma.

Felizmente para todos nós, começa a haver quem meta “as mãos na massa” e crie novas ocupações para si e não só. Darei dois exemplos, ambos de Lisboa. O primeiro chama-se A avó veio para trabalhar e foi criado por um grupo de avós que gostava de bordar e tricotar. Para além da venda do que fazem, dão também workshops e não só. O seguindo chama-se Um sénior ao domicílio e foi criado por Elena Durán por causa do pai que se reformara. A plataforma inclui pessoas com mais de 55 anos que querem manter-se ativas e têm competências que podem ser úteis a outros, como pequenas reparações, jardinagem, etc.

E há inúmeras outras opções. Na Alemanha, por exemplo, experimentaram criar pré-escolas junto a lares de terceira e idade – quer dizer, no mesmo edifício – e com ligação entre eles. Os idosos que o pretendessem poderiam passar algum tempo com as crianças, brincando com elas, lendo-lhes, conversando... Isso permitiu dar mais atenção individualizada às ditas crianças sem que fosse preciso aumentar o pessoal da escola, ou seja, sem aumento de custos.

Noutros países, por exemplo, muitas das caixas de supermercados têm idosos de serviço aos domingos – ganham um dinheirinho extra e, para quem não tem família ou amigos com quem passar o dia, sempre é uma diversão. Aqui seria visto, claro, como algo terrível, coitadinhos dos velhinhos a trabalharem!

Mas já repararam que esta atitude não abrange as zonas rurais? Aí, bom, é perfeitamente aceitável verem-se pessoas de 80 ou mais a trabalhar nas hortas e nos campos, a cuidar dos animais, tudo. Muito francamente, acho esta reação bem mais saudável!

É que apesar de toda a conversa sobre melhorar a vida dos reformados, cuidar dos idosos, etc., tudo isso não passa de paleio, a verdade é que a partir de uma certa idade – que até costuma ser inferior à da reforma – essas pessoas são vistas como descartáveis. Ou seja, deram o seu contributo, agora devem afastar-se, dar lugar a outras mais novas e, acima de tudo, não fazer ondas nem dar nas vistas, a menos que seja para ilustrar o interesse de alguém, quase sempre um político, pelos ditos “coitadinhos”.

Pois bem, como a reivindicação está mais na moda do que nunca, que tal começarmos a exigir não sermos postos de lado a partir de uma certa altura da vida? Bramar, por exemplo, para que a idade da reforma seja apenas um indicativo e que quem o queira fazer possa continuar a trabalhar sem obstáculos ou comentários depreciativos?

Mais ainda, não seria bom começarmos todos a pensar em profissões e tarefas alternativas que possamos ter e fazer a partir de uma certa idade, nem que seja a tempo parcial?

E há um outro aspeto igualmente triste para quem “vai para novo”. Sim, o mundo mudou muito e continua a mudar a um ritmo cada vez mais acelerado, e muito do que essas pessoas sabiam deixou de ter utilidade direta. Mas isso não significa que não possam ensinar nada às novas gerações, nem só de tecnologia vive o homem – bom, o ser humano, para dar uma de woke. E mesmo em termos práticos, há certamente muito que podiam transmitir, se lhes déssemos uma hipótese, costura, como reparar coisas, culinária, sei lá!

E outras coisas menos tangíveis, certos princípios de vida. Sim, não concordamos, certamente, com todas as ideias de pessoas de uma certa idade, mas o mesmo não acontece com os mais novos entre si? E em vez de os descartarmos à priori, que tal ouvirmos o que têm para dizer e depois, sim, “peneirar” tudo muito bem – quem sabe, poderemos até encontrar alguma pérola escondida!

Para a semana: Cuidemos de nós. Sem obrigações de sair, nem sempre cuidamos de nós e do nosso visual...