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Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

160 - Não temer o ir para novo

Há algo muito curioso nas nossas vidas. Durante uma parte dela ansiamos por ser mais velhos do que somos – em crianças queremos ser adolescentes, chega a adolescência passamos a querer ser adultos, enfim, até uma certa idade raras vezes apreciamos as vantagens da idade que temos, concentramo-nos, isso sim, nas suas desvantagens, reais ou imaginadas. Mas passado um certo limiar, que varia de pessoa para pessoa, dá-se precisamente o contrário – e não só queremos parar o tempo por todos os meios possíveis, tememos, sentimos um verdadeiro pavor só de pensar na passagem imparável dos anos.

Em grande parte a culpa até nem é nossa, crescemos e vivemos rodeados de casos mais ou menos explícitos de idadismo, de que tenho falado repetidamente, em particular em Idadismo I, Idadismo II e Voltemos ao idadismo, entre outros posts. E, como tenho explicado, para além de ser o único tipo de discriminação que esta sociedade tão woke aceita e ignora, tem características diferentes de todos os outros, uma vez que o interiorizamos desde cedo. Ou seja, somos nós próprios a associas uma idade avançada a todo o tipo de problemas físicos e mentais e à ideia de inutilidade em termos sociais e financeiros.

Perante isto, não admira que tantos tremam de medo, entrem em verdadeira paranoia quando se veem perto da idade da reforma – ou, até, quando pensam nela... Sim, muitos dizem, “quando estiver reformado vai ser ótimo, vou poder fazer isto ou aquilo”, só que, infelizmente e como muito bem sabemos, a maior parte desses projetos ficam na gaveta.

Em É tão bom já não ser novo falei, precisamente, das muitas vantagens de já ter uns bons aninhos em cima, repetindo, várias vezes, a expressão “Viva ser idoso”. E noutros posts tenho referido, vezes sem conta, que o “idoso” atual já não é o “velhinho” de há uns anos, é, isso sim, em muitos casos, uma pessoa em plena forma física e mental E basta olharem à vossa volta para verem que tenho razão, sobretudo entre os muitos estrangeiros que nos visitam oriundos de países onde esta mudança começou muito antes da nossa.

Sendo assim, porque é que continuamos a temer a inevitável “ida para novo”, associando-a a todo o tipo de desgraças para nós e para os nossos familiares? Bom, o problema é que por muitos bons exemplos que haja à nossa volta e por muito que saibamos que as coisas mudaram, bem no íntimo continuamos a ter a imagem de um idoso incapaz de cuidar de si e com todo o tipo de problemas físicos e, sobretudo, mentais.

Em vez de remarmos contra a maré, sugiro que se abafe essa vozinha que nos murmura futuras desgraças ao ouvido e que nos concentremos em garantir o melhor “ir para novo” possível. E não me refiro a tentar parecer mais novo mas sim a sê-lo, de facto. Ou seja, cuidar da nossa alimentação, fazer exercício regular – repito, não tem de ser nada muito complicado – e manter a mente ágil por meio de aprendizagens constantes, sejam de que tipo forem.

É claro que poderá surgir uma doença, um acidente, algo que descarrile, digamos, os planos cuidadosamente traçados. Mas à parte esse tipo de casos, se começarmos o mais cedo possível a fazer um esforço para estarmos bem e, acima de tudo, saudáveis, no corpo e na mente, o mais certo é chegarmos a uma idade avançada sem darmos por ela.

O mais importante é evitar expressões do tipo, “já não tenho idade para isso” ou, “na minha idade já não consigo” ou, pior ainda, “para os anos que me faltam, não vale a pena” – como disse anteriormente, os anos passam à mesma e, se calhar, em vez dos cinco ou menos que imaginava tem vinte ou mais, ou seja, vale sempre a pena.

Sim, haverá, certamente, coisas que, a partir de uma certa idade temos grande dificuldade em fazer ou até nem conseguimos, mas cada caso é um caso e isso não depende apenas da idade de calendário. Há quem aos 40 já não consiga dar uma boa caminhada sem ficar a deitar os bofes pela boca e outros que aos 80 ainda têm energia para dar e vender.

Mas independentemente do nosso estado físico, que tal aprendermos a desfrutar o momento que passa? Tentar encontrar um prazer, um motivo de alegria diários, por muito pequenos e insignificantes que nos possam parecer. E está sempre a tempo de começar, experimente, faça um esforço para descobrir algo bom todos os dias, o sabor de um chá, um pôr do sol bonito, um cheiro agradável, enfim, não faltam oportunidades se tentarmos ver o lado positivo da vida em vez de estarmos sempre à procura do negativo, da desgraça.

A existência humana é, sem dúvida, composta por ciclos. Já não podemos voltar atrás para apreciar os iniciais – em vez do tal querer ser mais velho – mas agora que somos mais adultos e temos – teoricamente – mais juízo, que tal tomar a decisão de aproveitar ao máximo os que nos faltam? Sim, “os”, plural, do modo como a esperança de vida tem aumentado, sem falar da evolução bem visível na que seria a última camada etária de uma população, quem sabe quantos mais nos restam?

Lembre-se, a ideia é manter-se com qualidade de vida até o mais tarde possível e, embora seja mais fácil quando se começa cedo, qualquer passo que se dê nesse sentido em qualquer idade será sempre produtivo. Além disso, quer queiramos quer não, envelhecer é o nosso destino – bom, há sempre a alternativa, morrer... Sendo assim, não será um disparate temer algo que é absolutamente natural?

Para a semana: Anemia. Muito comum em quem vai para novo, prejudica a qualidade de vida e não só

125 - Prendinhas que seria tão bom ter...

O ano passado, por alturas da Passagem de Ano, escrevi o post Eu gostava... Infelizmente, e como eu própria antevia, nenhum desses meus desejos se realizou, pode-se, até, dizer que em certas áreas as coisas pioraram. Vou tentar não me repetir muito, mas há alguns casos em que isso é inevitável.

A saúde, por exemplo. É uma das tais áreas em que as coisas pioraram, mesmo sem os trágicos acontecimentos ligados à greve do INEM. Pior ainda, com a triagem exigida agora via Linha SNS 24, muitos idosos ficarão ainda mais ao abandono. Não seria bom se criassem uma nova linha, com apenas três números – ou seja, como o 112 – para essa triagem? Ou seja, a atual Linha (808242424) ficaria para dúvidas mais genéricas e a nova para casos em que a pessoa acha que precisa de ir às Urgências, não excluindo uma certa sobreposição, claro, nem sempre sabemos onde “encaixamos”.

Seria bom para todos, mas sobretudo para quem vai para novo, é que três algarismos são bem mais fáceis de fixar do que nove. Já agora, dar também ao 112 a funcionalidade de passar as chamadas ao tal serviço de triagem.

Ainda na área da saúda, adoraria ver implementada a criação de postos médicos móveis, que circulassem pelo interior do país com percursos agendados de acordo com a densidade populacional. Para muitos dos não novos que residem em aldeias ou lugarejos seria a solução ideal para terem acesso a cuidados médicos atempados. E se o dito posto circulasse em conjunção com um posto farmacêutico, seria ouro sobre azul!

E quanto aos cuidados paliativos, de que muito se fala sem nada (ou pouco) se fazer, não será altura de “pensar fora da caixa” e imaginar opções que não passem por uma unidade especializada? É que, como mostra uma estatística recente, muitos morrem antes de terem uma vaga. E este é um daqueles casos em que se recusam soluções por não serem perfeitas mas sem tomarem consciência de que isso leva a situações, essas sim, péssimas.

Passemos aos maus tratos a idosos, de que tenho falado várias vezes. Seria tão bom se fosse, finalmente, implementado um sistema de visitas regulares ao domicílio para avaliar a sua situação. E não me refiro apenas aos que vivem sozinhos. Como notícias recentes provam, muitos dos abusos e maus tratos são obra de familiares – refiro-me, claro, à idosa que filho e nora deixaram morrer à fome, sem cuidados de higiene e sem que o fémur partido há meses tivesse sido visto e tratado.

Este foi certamente um caso extremo – esperemos – mas suspeito que não será tão raro como gostaríamos que fosse. E os lares deviam estar incluídos nestas rondas de visitas, sem dia ou hora certa para todos.

Numa área similar, gostaria que crimes contra idosos – roubos, agressões, etc. – tivessem um agravamento de pena pela cobardia que revelam. E não apenas para crimes graves, é que o trauma psicológico de ser roubado na rua ou numa invasão do domicílio, mesmo que não envolva violência, é agravado num idoso devido ao facto de se sentirem, à partida, mais fracos e indefesos.

Passemos aos transportes. Sim, o novo passe de comboio ajuda um pouco, mas continua a existir o problema que citei há um ano. Ou seja, para muitas aldeias e pequenas povoações a única solução para ir a uma consulta ou até às compras é chamar um táxi – se houver a sorte de existir um! Ora isto é incomportável com as parcas pensões de que muitos usufruem.

Um autocarro, mesmo que apenas semanal para locais mais isolados, ajudaria imenso a minorar estes problemas, quer fosse pago ou gratuito – seria um bem melhor uso dos nossos impostos do que muitas das benesses que se dão de mão aberta muitas vezes a quem nem precisa.

E nas grandes cidades, que tal criar um “favorecimento fiscal” a quem tenha viaturas adequadas a pessoas com pouca mobilidade? É que em muitos casos entrar num táxi ou viatura normal é um verdadeiro pesadelo e as opções para quem usa cadeira de rodas são escassas e caras.

Também a habitação continua a ser uma chaga. Choraminga-se muito pelos jovens que não conseguem comprar casa, mas, como sempre, ignoram-se os muitos casos de idosos que vivem sem condições. Que tal o estado ponderar a conversão de alguns dos milhentos prédios que possui em apartamentos pequenos adaptados a idosos, podendo, de preferência, incluir um “normal” para um casal que os ajudasse e respondesse rapidamente em caso de emergência?

Seria uma opção excelente para os muitos que acabam por ir parar a um lar porque se torna perigoso permanecerem sozinhos na casa que sempre habitaram, mesmo que esta esteja em boas condições.

E passemos às pensões. Continuo a não entender porque continuamos a pagar o RSI “para sempre” a quem tem bom corpo para trabalhar em vez de se usar esse dinheiro para garantir que não há pensões abaixo do salário mínimo – bom, como disse no post acima citado, esse valor deverá incluir outras fontes de rendimento, caso existam.

Pior ainda, uns são uns coitadinhos que só não trabalham porque não arranjam um emprego condigno – pois, viver à custa de quem trabalha é bem mais digno! – ao passo que os outros são ignorados.

E por falar em pensões, seria mesmo bom implementar o tal cartão de que falei em Haja equidade e que permitiria dar mais descontos, ou, até, gratuitidade em várias áreas de acordo com o valor da pensão auferida.

Finalmente, o combate ao idadismo. Como referi nos vários posts que tenho publicado sobre o assunto, continua a ser o único tipo de discriminação que é ignorado, ou antes, aceite nesta sociedade tão woke. E é o pior tipo porque, infelizmente, é interiorizado de tal modo que os próprios idosos acabam por se discriminar a si mesmos, uma vez que absorveram essas atitudes desde bem novos.

Bom, sou uma otimista nata, mesmo assim tenho uma “vaga” suspeita de que daqui a um ano estarei a pedir as mesmas coisas ao Pai Natal...

Só me resta desejar a todos um Bom Natal!

Para a semana: Fazer antes que seja tarde. Ou seja, a célebre "bucket list"

117 - Longevos e não idosos!

Já falei várias vezes de idadismo, tanto externo – o da sociedade – como interno – o que exercemos sobre nós mesmos. Não me irei, pois, repetir, darei apenas mais um exemplo de como continua a ser visto como algo normal e não discriminatório: a nossa Constituição!

Sim, a última revisão, de 2005, cita 11 situações de violação do “Principio de Igualdade”: ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social, orientação sexual. Pois, engloba, aparentemente, tudo e mais alguma coisa... exceto a idade!

Mas a verdadeira razão do título deste post vem da constatação de que, numa sociedade em que passamos a vida a ouvir dizer que “as palavras contam” e em que não se pode dizer isto e aquilo porque pode ofender, o termo idoso continua a ser comummente usado, apesar das muitas conotações negativas que tem, nomeadamente, o facto de serem os ditos vistos como incapazes para qualquer atividade produtiva, pior ainda, como um fardo para a restante população.

Daí eu achar que se deva substituir idoso por longevo e envelhecimento da população por longevidade da população. Pode parecer uma coisa menor, sobretudo face à definição “oficial” dessas palavras, mas o termo longevidade tem, agora, conotações bem mais positivas, está associado a uma vida plena e feliz. Ou seja, longevidade é, apenas, a constatação de que passamos cada vez mais tempo na chamada “idade avançada”

Basicamente – e como já o disse por diversas vezes – continuamos a associar o termo envelhecimento ao mesmo estereótipo de há séculos, sem vermos que o grande impacto da longevidade é, precisamente, atrasar a velhice. Mais ainda, enquanto o envelhecimento está ligado à chamada disrupção demográfica – uma percentagem cada vez maior de idosos na população – o fator de disrupção associado à longevidade está no facto de não nos sentirmos com a idade biológica que temos.

O que nos leva a um novo conceito, a idade prospetiva ou remanescente: esta é determinada pelo número de anos que é expectável vivermos ainda. Como exemplo, os 65 anos de 1960 correspondem, agora, a 72! Grande azar para quem quer reduzir a idade da reforma... E não é uma mera teoria, estudos mostram cada vez mais pessoas com uma idade avançada e que têm biomarcadores correspondentes a uma bem mais baixa.

Mas há mais. A categoria etária “idosos” engloba, atualmente, as pessoas com 65 aos ou mais, um valor já usado nos anos 40. Só que a sociedade mudou imenso desde então e as pessoas também, sobretudo em termos de esperança média de vida e saúde.

E se queremos alterar o modo como a sociedade vê essa fatia cada vez maior da população e, acima de tudo, o modo como nós, os abrangidos, nos vemos, temos de começar a pôr em prática o chamado envelhecimento ativo, definido como “o processo de otimização das oportunidades para a saúde, participação e segurança, para a melhoria da qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem bem como o processo de desenvolvimento e manutenção da capacidade funcional, que contribui para o bem-estar das pessoas idosas, sendo a capacidade funcional o resultado da interação das capacidades intrínsecas da pessoa (físicas e mentais) com o meio” (World Health Organization, 2015).

Em termos práticos e pessoais, engloba medidas que todos podemos tomar para garantir – ou, pelo menos, aumentar as probabilidades – de chegar até bem tarde em plena forma física e mental. Já falei deles em posts anteriores, relembro, apenas, aqui os principais: atividade física (exercício), alimentação saudável, exercitar a mente, dormir bem, cortar nos vícios. E, também, reduzir o stress e arranjar momentos de lazer e de prazer.

Apesar de se estar sempre a tempo de adotar medidas nestas áreas, o ideal será começar por volta dos 50 anos – ou mais cedo, claro. Mas se já os deixou há muito para trás, “vale mais tarde do que nunca” é um ditado que também se aplica, e bem, aqui.

Um fator importantíssimo para sermos longevos e não idosos está no envolvimento social, que pode ser na família ou na sociedade em geral, com voluntariado, por exemplo, para combater a tão temida e prevalecente solidão de que muitos padecem atualmente e que os impede de viverem plenamente a sua longevidade.

Um outro fator, também ele muito importante, está no emprego, ou seja, deve-se trabalhar mais tempo. Atenção, isto não significa, necessariamente, continuar a fazer o que se fazia, a menos que se queira – já agora, como também já tenho referido, seria bom que a reforma passasse a depender, não apenas da idade, mas também da vontade e capacidades da pessoa em questão. Isto passa por alterar as práticas laborais, para que os longevos se possam manter ativos, mesmo os que têm alguns problemas de saúde.

Muitas sociedades já adotaram medidas nesse sentido, revalorizando a experiência e capacidade de adaptação dos seus elementos de idade mais avançada, em vez de desperdiçarem, como é mais usual, o tremendo capital humano da chamada terceira idade. Mais ainda, começa a ser cada vez mais normal em alguns países vermos pessoas a mudarem de profissão aos 70 anos ou a criarem um negócio aos 80, uma prática que devia ser encorajada.

Um último fator para a longevidade é manter a independência o máximo de tempo possível. Sim, isso passa por haver pensões que permitam ter uma vida condigna, mas, na minha opinião, o seu maior impulsionador será uma mudança de mentalidades, sobretudo as de quem vai para novo, para que deixem de se sentirem inúteis ao ultrapassarem a temida barreira dos 65 anos.

Ao contrário da velhice, a longevidade deverá, pois, ser um período desejável, o que implica rever leis laborais e pensões, promover o envolvimento social, melhorar o acesso a cuidados de saúde, sobretudo preventivos, e criar ambientes e uma sociedade que permitam a sua boa vivência.

Ou seja, fora como o “idoso” – e, sobretudo o “velhinho, coitadinho” – e viva o “longevo”!

Para a semana: Obstipação. Ou a comezinha prisão de ventre, muito usual em quem vai para novo

91 - 50 aos depois

Mantendo o tema do 25 de abril, tão popular esta semana, vou falar um pouco do que mudou, para melhor e para pior, nestes 50 anos, mas em termos da camada com mais uns aninhos em cima.

O primeiro dado que salta logo à vista é o tremendo pulo que deu a esperança média de vida. Em 1974 era, em média, de 68,2 anos, sendo a dos homens 64,8 anos e a das mulheres 71,4. Passados os tais 50 anos, estes valores passaram para 81, 78,1 e 83,5, respetivamente. Ou seja, a média aumentou uns incríveis 16,2 anos, subindo 13,3 anos para os homens e um pouco menos para as mulheres (12,1).

Pus a negrito os valores referentes aos homens porque, atendendo a que constituíam a maioria da força laboral, sobretudo da que tinha direito a pensões – de que falarei mais num post futuro – esta subida foi a que mais afetou alguns aspetos económicos atuais. É que, se repararem bem nos números, muitos não chegavam sequer a usufruir da reforma ou morriam pouco depois de a obterem, muito ao contrário do que se passa agora.

Muito deste aumento ficou a dever-se à melhoria das condições de vida e ao Sistema Nacional de Saúde que, nos seus primeiros anos, funcionava lindamente e foi um elemento importantíssimo na melhoria do estado geral de saúde da população, muita da qual tinha, até então, pouco ou nenhum acesso a cuidados médicos de rotina.

A abertura do país ao exterior também contribuiu, abrindo as mentalidades para outros modos de vida, sobretudo em termos de alimentação e de atividade física por mero lazer. E a alteração sofrida pela economia portuguesa também deu a sua ajuda, com a queda acelerada do setor primário e o aumento, também ele muito forte, do terciário, menos desgastante em termos físicos.

Mas a maior alteração, pela positiva, nestes 50 anos teve a ver com as pensões. Antes do 25 de abril, estas estavam praticamente reservadas a funcionários públicos, apesar de em 1972 ter sido criado o regime de previdência dos trabalhadores agrícolas, destinado a abranger, de imediato, os inscritos nas casas do povo que se encontrassem em situação de carência por motivo de invalidez ou velhice e, posteriormente os não inscritos nas casas do povo. E sem esquecer a pensão de sobrevivência, para viúvas de funcionários públicos que, sem ela, ficariam totalmente ao desamparo.

Quanto ao resto da população, bom, estava mais ou menos por conta própria, sobretudo as mulheres que, com a discrepância enorme na esperança média de vida e estando pouco presentes no mundo laboral, ficavam, muitas vezes, desvalidas na velhice, a menos que tivessem algum apoio dos filhos.

A partir de 1974 o sistema de pensões foi sendo progressivamente alargado, passando a existir, até, a pensão social para quem nunca descontou para a Segurança Social. Sim, muitos dos valores são baixíssimos, mal dão para viver, mas, mesmo assim, sempre são uma ajuda preciosa para quem, sem isso, ficaria sem qualquer meio de subsistência.

Juntemos-lhes, também, passes sociais e outros descontos vinculados à idade e chegamos à conclusão que sim, os idosos estão, pelo menos no papel, bem melhor.

É claro que os custos de tudo e mais alguma coisa dispararam, entretanto, e o que seria uma boa quantia há uns anos é agora um valor miserável, sobretudo porque, felizmente, as expectativas também mudaram e muitos não têm, agora, paciência, se é que este é o termo correto, para passar o tipo de privações que há 50 anos seriam consideradas banalíssimas.

O decréscimo acima citado do setor primário, sobretudo a partir de 1974, teve, também, uma consequência negativa, a tão badalada desertificação do mundo rural e o tremendo isolamento dos idosos que por lá ficaram, sobretudo porque não conheciam outra vida. E mesmo tendo agora a tal pensão social, a sua vida pouco mudou, para muitos tudo continua quase como era no tempo da sua juventude – é que com as dificuldades de deslocação em muitos desses locais, o dinheiro de pouco lhes serve.

A melhoria na educação após o 25 de abril trouxe, por outro lado, uma nova leva de menos novos com outra atitude em relação à idade e ao seu papel na sociedade. Ou seja, já não se contentam em ficar quietinhos a um canto, à espera da morte, mexem-se, aprendem, viajam, fazem-se ouvir, enfim, começam a ser uma força a ter em conta, como já vemos noutros países.

Sem contar que, com o aumento crescente de pessoas com boas reformas – ou, no mínimo, razoáveis – e com capacidades que podem aplicar noutros setores ou em empresas próprias, esta camada etária começa a ter um peso considerável na economia nacional, e não pela negativa, como nos tentam fazer crer. Ou seja, começam a ocupar um espaço que há 50 anos estava reservado para os patriarcas de famílias economicamente poderosas.

Há, no entanto, um aspeto que, se mudou, fê-lo pela negativa: o modo como os idosos são vistos pela sociedade. É que, como já tenho dito noutros posts, deixaram de ser vistos como detentores da sabedoria popular, pessoas com quem se podia aprender. E lembro que muitas profissões eram transmitidas precisamente assim, entre camadas etárias.

Há ainda a questão de a generalização das pensões mais o aumento da esperança de vida levou à ideia de que os idosos são um peso morto na sociedade, um fardo que os mais novos têm de sustentar – ideia totalmente errada, como também já tenho explicado em posts anteriores.

E numa sociedade que, 50 anos depois do 25 de abril, se afirma igualitária e defensora dos direitos de todos, é, no mínimo, triste que o idadismo continue a imperar sem freio, sendo ignorado, ou até, desconsiderado precisamente pelos que mais afirmam, alto e bom som, as virtudes da Revolução dos Cravos.

Para a semana: Os avós já não são o que eram. Uns fazem de pais, outros são postos de parte, há até os que são mesmo pais numa idade avançada...

44 - Idadismo II

Voltamos, mais uma vez, ao único tipo de discriminação que continua a ser bem aceite, por muito woke que seja a sociedade: os idosos. E há várias razões para isso – quer dizer, para ser ignorada, não para existir.

A primeira razão é que, ao contrário com o que se passa com raça e sexo, não somos vítimas dela durante uma boa parte da nossa vida. Ou seja, só nos abrange após uma longa vivência, sendo, pois, muito mais subtil do que os outros tipos. Ao fim e ao cabo, a nossa raça, por exemplo, está connosco desde que nascemos, mas só chegamos a “velhos” após bastantes anos.

Mas há mais. Durante toda essa longa jornada somos, muitas vezes, culpados de exercer essa mesma discriminação contra quem já atingiu a meta, digamos. Ou seja, durante a nossa vida temos dois papéis em relação ao idadismo: primeiro como atuantes, depois como vítimas.

Pior ainda, muitas dessas atitudes discriminatórias são-nos incutidas, sem sequer darmos por isso, literalmente desde o berço. Crescemos a pensar nos idosos como pessoas frágeis, confusas, com todo o tipo de problemas e que o que querem é “sopa e pantufas”, deixando de contribuir para a sociedade.

Acham que não? Quantos filmes e séries têm bons papéis para idosos? E não me refiro ao “velhinho” ou à “avó” que dão bons conselhos e têm uma imagem mais do que tradicional. Não! Idosos como os que há agora, pelo menos em muitos países, cheios de força, em pleno uso das suas faculdades mentais e com projetos de vida e atividades de todos os tipos.

E não há a mínima pressão para alterar essa situação. Hoje em dia não há filme ou série que se preze que não tenha quotas (oficiais ou não) de raças e de não heterossexuais, por muito absurdas que sejam – como vermos Ana Bolena a ser representada por uma atriz negra. Mas a pressão para essa “igualdade” desaparece quando se fala de idade.

E acreditem, o idadismo é bem pior do que os outros tipos de discriminação porque nos abrange a todos e por não existir abertamente. Sim, é muito fácil acreditar na “bondade” de uma idade da reforma obrigatória aos 65 anos quando a esperança de vida é de 85, mas se analisarmos bem as coisas acabamos por concluir que a verdadeira razão é essas pessoas serem vistas como inaptas para o trabalho apenas pela sua idade.

Sim, há pessoas que precisam de acompanhamento quando os anos começam a pesar. Mas há estudos que provam que, numa sociedade com uma atitude diferente, isso acontece bem mais tarde. É que à força de crescermos e vivermos com a ideia de idoso = incapaz, quando chegamos à tal idade mágica já interiorizámos de tal modo o conceito que é assim que nos sentimos.

Quantas mulheres, perante o início da menopausa, sentem que a sua vida acabou, que já não são mulheres a sério? Quantas pessoas largam ou nem iniciam certas atividades porque se acham demasiado velhas para isso, mesmo que estejam “ali para as curvas”, falando bom português?

A separação cada vez maior que existe na nossa sociedade entre quem vai para novo e os que ainda não chegaram lá também contribui bastante para esta situação. Ao crescerem, as crianças veem que os idosos vivem à parte da restante sociedade e internalizam a ideia de que são seres diferentes. E não falo apenas de lares e similares, no dia a dia, quantas pessoas idosas encontram em posições “normais”, digamos, como professores, empregados de comércio, etc.?

E, repito, a atitude dos nossos governantes também não ajuda. Quando dão benesses como passes gratuitos a todos os que têm mais de 65 anos, qual é a imagem que isso transmite aos mais novos? Pois bem, de que os idosos são incapazes de cuidar de si, que são um fardo para quem trabalha.

Dir-me-ão que também há benesses “cegas” para crianças e jovens. Sim, mas o seu efeito psicológico é diferente. Esses jovens não trabalham, por definição, por isso qualquer tratamento diferente seria com base nos recursos económicos da família, nada tendo a ver com eles. Mas os idosos trabalharam, de um modo ou de outro, por isso uma benesse igual significa pô-los todos no mesmo saco, por muito diferentes que sejam as suas capacidades económicas. Ou seja, o seu único fator comum é a idade.

Como mudar tudo isto? Bom, muito francamente, não sei. Só posso dizer que talvez fosse boa ideia analisar o que se passa em alguns países em que a imagem dos idosos é totalmente diferente. O Japão, por exemplo. Talvez não seja por acaso que, no tempo em que viajava, quando encontrava “velhotes” japoneses, pois bem, tinham mais energia e prazer de viver do que eu apesar de terem umas décadas a mais...

É que, ao contrário de outras discriminações, esta é mais difícil de detetar e de combater. Muito simplesmente, há uma fronteira muito ténue entre cuidar de pessoas que, pela sua idade e estado de saúde não o podem fazer e considerar que todas as pessoas acima de uma certa idade têm esses mesmos problemas. E vermos na TV e no cinema idosos que não são “só” os avós mas sim pessoas que viajam, trabalham, têm vida social – e romântica, porque não – daria uma enorme ajuda, talvez não para nós mas pelos menos para as novíssimas gerações.

Voltarei a este assunto em posts futuros.

Para a semana: E é verão. Alguns conselhos para ter um bom (e saudável) verão