176 - Ano Novo, VIda Nova
Ao contrário do que fiz no meu outro blogue, Luísa Opina, não irei fazer um apanhado do que mais me chamou a atenção – infelizmente, sempre pela negativa – neste ano que está quase no fim. Não por falta de assunto mas, simplesmente, porque vimos apenas mais do mesmo: idosos maltratados em casa ou em lares, idosos descobertos mortos em casa ao fim de algum tempo, nenhuma melhoria nas condições de vida dos ditos, sobretudo nos cuidados médicos e até, atendendo a que foi ano de Eleições Autárquicas, zero referências dos nossos “estimados” políticos a este setor cada vez mais numeroso da nossa população, pelo menos em termos positivos ou de anúncio de mudanças.
E, para culminar, o discurso do senhor de Belém – felizmente para o ano já não será ele a fazê-lo – em que referiu o “envelhecimento da população” como uma tragédia, opinião de que discordo totalmente, como bem sabe quem tem lido este blogue, e que espanta ainda mais por vir de alguém que, apesar da idade, ocupa o que é suposto ser o cargo mais alto do nosso país.
Mas passemos ao tema deste blogue. Já falei anteriormente nos usuais desejos e resoluções de Ano Novo, precisamente em Resoluções de Ano Novo e também em Comecemos bem e Fazer antes que seja tarde, este mais dedicado à célebre “bucket list” – coisas a fazer antes de morrer – em que dou algumas dicas sobre o cliché que é tudo isto e de que aconselho a releitura.
Basicamente, sou contra a criação de uma longa lista de resoluções mais ou menos utópicas e, acima de tudo, do hábito de se ir adiando tudo para “depois do fim do ano”. Sim, os seres humanos sempre gostaram de dividir o tempo que passa e, acima de tudo, de assinalar certas datas como importantes. E a própria expressão “Ano Novo” dá aquela sensação de recomeçar do zero, de fazer tábua rasa de tudo o que se fez até agora, algo sempre muito apetecível numa espécie que cunhou a célebre expressão “errar é humano”.
Infelizmente, todos sabemos que esse ímpeto pouco dura e, às vezes, nem sequer começa. É que nos esquecemos que a inércia não afeta só objetos físicos mas também coisas imateriais como hábitos e modos de pensar. Refiro-me, claro, ao conceito da física em que “inércia é a propriedade dos corpos que não podem, só por si, alterar o seu estado de repouso ou de movimento”. Ou seja, só conseguiremos mudar algo na nossa vida se fizermos um esforço a sério para que isso aconteça.
A boa nova é que, com o passar do tempo, o esforço exigido diminui imenso e torna-se, até, mais fácil, manter o novo rumo do que voltar ao anterior. Se já tentou empurrar um carro, sabe bem que para o fazer começar a mover-se é preciso fazer muita força mas mal começa a andar o esforço que se lhe aplica é mínimo – a dificuldade está, até, em fazer com que pare rapidamente!
Entremos, pois, no próximo ano com uma listinha de coisas que queremos alterar em nós ou na nossa vida – relembro que nos posts acima citados mostro como criar listas possíveis de concretizar. Mas façamo-lo com os olhos bem abertos, sabendo que nada acontecerá magicamente ao soarem as 12 badaladas da Passagem do Ano, sobretudo para quem já tem uns bons aninhos em cima e hábitos bem arreigados.
Sendo assim, que mudanças são mais importantes para si nesta fase da sua vida? É que se escolher “comer de modo mais saudável, fazer exercício todos os dias, conviver e sair mais, viajar” e sabe-se lá que mais, tudo de uma só vez, garanto que não irá alcançar nenhuma dessas alterações por muitos Anos Novos que venha a viver com esta mesma “resolução”.
Isto não impede que crie uma lista destas para começo. Mas depois analise-a muito bem tendo em vista a sua praticabilidade. E não só, há algumas mudanças que, uma vez iniciadas, facilitam muito a realização de outras. Por exemplo, se começar a comer de um modo mais saudável, há fortes probabilidades de lhe ser bem mais fácil começar a exercitar-se e vice-versa. Se começar a sair mais, a ideia de fazer uma viagem pode começar a parecer-lhe algo muito mais viável.
Basicamente, comece devagar, não tente, em circunstância alguma, ir dos 0 aos 100 só porque começou um Ano Novo – já agora, marcar o dia 1 de janeiro como o início de uma alimentação mais saudável poderá não ser a melhor ideia do mundo...
Acima de tudo, analise bem a razão porque não faz essas coisas que diz desejar fazer. Aposto que descobrirá que na maior parte dos casos isso se deve à sua mentalidade – o idadismo que interiorizamos e que nos diz que “na minha idade já não vale a pena”, a opinião dos célebres “outros” – “vais viajar com a tua idade?!” – e, até, hábitos adquiridos em mais novos que nunca questionámos – por exemplo, fazer exercício sem ser por obrigação não era exatamente um hábito português.
Tente, também, entender porque quer fazer essas alterações ou introduzir essas coisas na sua vida. É por gostar? Por achar que será mais feliz, viverá melhor? Ou é apenas porque “todos” dizem que o deve fazer?
Se tentar, apenas, alterar coisas “à força”, sem entender porque o quer fazer e, acima de tudo, porque nunca o fez, as suas hipóteses de êxito não serão muito grandes – a compreensão ajuda a que o tal esforço para vencer a inércia pareça menor ou, no mínimo, que vale mesmo a pena.
Como detalhe final, que tal remar contra a maré e em vez de definir o dia 1 de janeiro como sendo o início do “Ano Novo” das mudanças que quer na sua vida escolher uma outra data? Sei lá, o 5 de janeiro! E este ano até dá jeito, calha a uma segunda-feira, o usual início da semana!
Enfim, uma boa Passagem do Ano, cheia de esperança para 2026!
Para a semana: Voltemos aos cuidados com o frio e mau tempo. Com o estado atual dos hospitais, não é mesmo boa altura para adoecer!