171 - Comida conforto
Agora que estamos a entrar num período de dias frios, cinzentos, chuvosos e ventosos, que criam – ou exacerbam – depressões e uma sensação generalizada de desconforto, está na altura de falar da chamada comida de conforto.
Basicamente, a comida de conforto – ou comida reconfortante – é, como o próprio nome indica, um tipo de refeições que melhoram o nosso bem-estar físico e também psicológico pelas suas ligações nostálgicas ou emocionais. E, apesar de se poder pensar que é uma expressão relativamente moderna, já se encontra uma referência a alimentos reconfortantes no livro Dom Quixote de 1615! Mas a sua grande divulgação arrancou em meados do século 20 e só foi registada em dicionários (americanos) na década de 1990.
Apesar de ser, muitas vezes, uma escolha pessoal – ou seja, o que me reconforta a mim pode nada fazer por si – este tipo de comida é, em geral, substancial e rica em gordura e / ou açúcares. Daí ser frequente o uso de chocolate, gelados, guisados, sopas grossas e similares para esse fim. Quem não se lembra das inúmeras vezes em que, em filmes e séries, a protagonista – sim, é quase sempre uma ela – vai buscar uma caixa de gelado por se estar a sentir deprimida ou ataca o seu stock de chocolates e doces?
Tem havido, até, estudos sobre este assunto e que dividem este tipo de comidas em quatro tipos:
- Nostálgicas, normalmente associadas à nossa infância ou a períodos felizes da nossa vida.
- Indulgentes, no sentido de esquecer dietas e alimentação saudável e comer aquilo que apetece mesmo, por muito mal que faça.
- De conforto físico, em que a sua composição gera bem-estar, emocional e físico, como o café ou o chocolate, por exemplo.
- De conveniência, bom, como o nome indica, já estão preparadas ou são de fácil obtenção – sobretudo agora, com as entregas ao domicílio – e cuja componente “conforto” vem, precisamente, de não ser preciso fazer nada (ou quase nada).
Resumindo, há várias vertentes na comida de conforto, muitas delas viradas para momentos da nossa vida em que nos sentimos felizes. Mas algumas contêm, também, nutrientes importantes para a nossa saúde mental, como vitaminas B e magnésio, por exemplo, que produzem neurotransmissores que regulam o nosso humor.
E, precisamente porque muita dela está associada a recordações muito nossas, varia muito, não só de pessoa para pessoa mas também de país para país. Já agora, se estiver interessado, encontra aqui uma lista das comidas de conforto de alguns países – infelizmente, Portugal não está incluído...
Mesmo assim, algumas das favoritas dos portugueses incluem as sopas tradicionais, muito fortes e com batata e outros legumes, os guisados de todos os tipos, incluindo feijoadas e similares, as açordas, o empadão, que não tem de ser só de carne, favas com várias carnes de porco, o velhinho rancho e, claro está, o cozido à portuguesa, isto para só falar em salgados. Quanto aos doces, bom, os tradicionais caem quase todos neste critério.
Mas há outros aspetos nem sempre referidos quando se fala de comida de conforto e que eu acho igualmente importantes para o reconforto da nossa alma: os aromas e as cores.
No recente post A depressão do outono / inverno referi, precisamente, como os cheiros podem ajudar a melhorar a nossa disposição. E isso é sobretudo verdade quando estão associados à comida. Por exemplo, o cheirinho que fica na casa quando se faz um bolo – ou pão. Sobretudo para quem vai para novo e cresceu antes das “modernices” da comida que basta pôr no micro-ondas, o cheiro que invade a nossa habitação quando cozinhamos pode ser muitíssimo reconfortante – bom, também pode ser mau, como o célebre cheiro a couves que se entranha em tudo e não é particularmente agradável.
Não é, aliás, um mero acaso existirem à venda velas com cheiro a canela, por exemplo, ou a baunilha. De um modo geral, o aroma de especiarias quando estão a ser cozinhadas é muito reconfortante – daí a indicação de as colocar logo na fase inicial, a seco ou quase, para libertarem os respetivos aromas.
Nesta área, ainda mais do que na dos sabores, o fator “reconfortante” é mesmo uma opção pessoal. Vá, pois, experimentando até encontrar os que resultam melhor consigo. E repito aqui o que disse no post citado, evite os ambientadores em spray ou similares, dê preferência a óleos essenciais. E na cozinha, introduza novos sabores, a variedade de condimentos à venda é cada vez maior e encontrará, certamente, alguns do seu agrado em termos culinários e de aroma.
Passemos, agora, às cores. Sobretudo em dias cinzentos, tente dar algum colorido aos seus pratos, através dos ingredientes ou da guarnição. Abóbora e cenoura, por exemplo, uma ver que a cor laranja está associada ao conforto e é, também, estimulante. Ou elementos vermelhos, como tomate ou pimentos. E há ainda o amarelo, pode sempre usar aqueles pimentos miniatura.
Decore, também, o produto final, um pouco de salsa ou coentros fica sempre bem, ou, para variar, vá experimentando com outros verdes E já há misturas de ervas – ou só cebolinho – vendidas em frasco para incluir em saladas e que são ótimas por cima da comida, dando-lhe um toque verde que lembra o renascer da primavera. O importante é não ter à sua frente um prato monocromático, para isso bem basta o cinzento exterior em muitos dias de inverno.
Último detalhe, como a chamada comida de conforto tem, normalmente, ingredientes muito ricos – leia-se, calóricos – ou usa modos de confeção não exatamente saudáveis, tente não abusar dela. Ou, melhor ainda, crie para consumo mais corriqueiro, versões mais leves – como uma feijoada de peixe, por exemplo, ou uma jardineira em que usa curgete ou nabo em vez da batata. Para além de estar a proteger a sua saúde, transformará o consumo da “verdadeira” num evento especial para aquelas ocasiões em que precisa mesmo de um empurrãozinho para se sentir um pouco mais animado.
Para a semana: Voltemos à segurança. Há cada vez mais "truques" para lesar pessoas, sobretudo idosos, e outros, bem velhinhos, que voltaram a aparecer.