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Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

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87 - Renovação

Sei que não é o tema que anunciei a semana passada, mas o texto saiu um bocadinho “negro”, mais Sexta-feira Santa do que Domingo de Páscoa, fica, pois, para o próximo domingo. No fundo até calha bem, como digo no seu início, se queremos renovar a nossa vida é boa ideia pôr-lhe, primeiro, alguma ordem. Ou seja, estará na continuação do post desta semana.

Para os cristãos, a Páscoa celebra a ressurreição de Cristo no terceiro dia após a sua crucificação. Mas há uma Páscoa mais antiga, a judaica, Pessach, que celebra a libertação do povo hebreu do Egito há uns 3500 anos. E a razão de terem o mesmo nome é que a Ressurreição se terá dado precisamente durante o Pessach desse ano. Quanto aos não cristãos ou aos não praticantes, bom, é apenas um bom pretexto para uma escapadela de três dias e, acima de tudo, para comer coisas boas e bem docinhas...

O que ambas as Páscoas têm em comum é o sentimento de renascimento: na cristã, o de Cristo e, através dele, a promessa da salvação para os crentes; na judaica, uma nova vida para os hebreus, livres, finalmente, da escravatura no Egito. Sendo assim, que tal aplicarmos esse conceito à nossa própria vida? Sim, bem sei que é o tipo de coisa que costumamos associar à Passagem do Ano com o tão badalado “ano novo, vida nova”. Mas passados que estão já três meses acho que para a maioria tudo se resume, como sempre, a “mais do mesmo”. Sendo assim, que tal fazermos agora uma nova tentativa?

Já tratei, de certo modo, deste tema em Aproveitemos esta época, em que dei várias sugestões para distrações e outras ocupações na primavera. E se seguiu algumas das indicações de hibernação que dei em Preparemos o Inverno, já está no bom caminho para se reinventar agora ou, no mínimo, para revigorar a sua vida. Sendo assim, irei dar ênfase, neste texto, à componente psicológica, espiritual, até, das nossas vidas.

Como tenho dito noutros posts, um dos grandes problemas do idadismo é que o internalizamos desde tenra idade. Recordemos o exercício que indiquei anteriormente, escrever as cinco primeiras palavras ou conceitos que nos vêm à mente quando pensamos em velhice. Aposto que a maioria dos que escreveu são negativos, há, até, uma forte probabilidade de o serem todos, coisas como perda de memória, debilidade física, abandono...

Como primeiro passo desta renovação, tentemos, mais uma vez, substituir esses termos por outros positivos. Por exemplo, experiência de vida, tempo livre, ausência do stress do emprego...

Mas não é tudo. Se queremos quebrar as grilhetas da nossa visão sombria do que seriam, até há bem pouco tempo, os últimos anos da nossa vida e que se arriscam, agora, a ser umas décadas, teremos de ir mais longe.

Como muitos estudos o comprovam, muitos dos chamados idosos sofrem de depressão ou estão muito perto dela. E isso deve-se, em grande parte, à visão negativa que têm de envelhecer, visão essa, repito, muito reforçada por esta sociedade em que vivemos. É claro que isso não se muda da noite para o dia, tanto a nível coletivo como individual. Pouco podemos fazer quanto ao primeiro, mas o segundo depende quase exclusivamente de nós.

Façamos, pois, uma promessa de Páscoa: lutar com todas as forças contra as nossas ideias negativas sobre a idade e tentar substituí-las por algo mais positivo. E até nem é muito difícil, basta uma pequena mudança de perspetiva.

Por exemplo, se costumava dar passeios a passo acelerado e agora fá-lo bem devagar, em vez de se focar na diferença para pior da sua forma física diga, mentalmente, “que bom ir mais lentamente, assim posso apreciar melhor as coisas por que passo”. Ou se já não absorve um livro ou artigo com a mesma facilidade, pensar, “relendo várias vezes acabo por apreciar detalhes que me passaram ao lado das primeiras vezes.”

Veem? Bem simples. E, pequeno detalhe, como esta mudança de atitude nos leva a fazer mais coisas em vez de pararmos porque “já não é como dantes”, verá que aos poucos as coisas até melhoram. No mínimo, sentir-se-á menos infeliz com aquilo que não pode mudar.

E é esse um outro aspeto desta renovação, aceitar que as coisas se vão alterando com o passar dos anos. Relembro, aqui, o meu post A recusa da realidade, em que falo precisamente disso. Cada idade tem a sua beleza e as suas vantagens e não vale a pena passar anos a suspirar pelo que se era em vez de apreciar o que somos agora.

Isto é especialmente importante para quem acha que, por ter-se reformado do emprego que manteve durante anos, é agora um inútil que não serve para nada. Também aqui, em vez de se deixar ficar parado, sem nada fazer, tente arranjar uma ocupação ou um passatempo. E que tal ensinar algumas das coisas que sabe fazer? Não me refiro apenas ao que fazia como profissão, há muitas outras coisas, de pequenas reparações domésticas a cozinha e muito mais que pode muito bem transmitir a familiares ou conhecidos mais novos que nada percebem do assunto. Com a vantagem adicional que transmitir conhecimentos é um bom exercício para a memória!

Resumindo, faça a sua própria ressurreição do túmulo convencional do que é a velhice, quebre as cadeias que o prendem à ideia de que velhice significa fraqueza e inutilidade. Boa Páscoa!

Para a semana: Organizemo-nos. Documentos, receitas e muito mais...