86 - Sexo em idosos, o grande tabu
Um dos grandes mitos da nossa sociedade é que os idosos deixaram de ter sexo. Aliás, do ponto de vista dos jovens, essa abstinência dos adultos, digamos, começa até bem mais cedo. Pior ainda, este é um daqueles casos de discriminação dupla, aceita-se que um homem de 70 ou mais tenha uma vida sexual ativa, já a mulher... basicamente, considera-se que tudo isso acaba com a chegada da menopausa.
Só que não é verdade. Sim, as coisas vão mudando, mas o interesse permanece. Mais ainda, as alterações são diferentes no homem e na mulher e, como seria de esperar, variam de pessoa para pessoa. E numa época em que há cada vez mais gente acima dos 65 anos que está aí para as curvas, para falar bem e depressa, acho que já é mais do que altura de quebrar este silêncio e de falar abertamente das possibilidades, precauções e alterações que se podem esperar nesta área.
Será, pois, um assunto a que voltarei futuramente, o post de hoje tem como objetivo deixar um alerta.
É que todo este tabu e fechar de olhos ao que realmente se passa está a ter uma gravíssima consequência que é o aumento cada vez mais acentuado das doenças sexualmente transmissíveis (DST) na população da chamada terceira idade, um fenómeno que está a ser detetado por todo o mundo ocidental. Já há países que começaram a tomar medidas para travar o que poderá vir a ser um grave problema a curto e médio prazo, o nosso, infelizmente e como seria expectável, não está entre eles.
Há várias razões para este disparo. Com o aumento da longevidade e também da taxa de divórcios, acompanhados de uma melhoria do estado de saúde e boa forma física da população, há cada vez mais homens e mulheres que se veem a “namorar”, para usar um eufemismo, numa idade que a sociedade considera tardia.
E precisamente por causa da sua idade não tomam precauções, uma vez que já não há o perigo de uma gravidez indesejada. No fundo, até é uma atitude lógica, vejam-se as campanhas do aborto que fazem passar a ideia de que o único “risco” de ter sexo é vir a ter de fazer um, ou seja, vendo-as é fácil concluir que os preservativos só servem para impedir uma gravidez.
E se os jovens estão mal informados sobre este assunto, que até é falado na escola, imagine-se como será com pessoas que cresceram, em muitos casos, numa época em que nem se podia falar de sexo e se esperava que um casamento fosse “para sempre” e, acima de tudo, monógamo, bom, pelo menos para as mulheres, sempre se aceitou a ideia de “homens são homens”...
O mais grave nesta situação é que muitos dos sintomas associados, por exemplo, ao HIV e à SIDA, como perda de peso e distúrbios da memória, são vistos como sendo devidos à idade. É mais um reflexo do idadismo que reina no nosso setor médico não pensarem numa DST como o fariam se os mesmos indícios estivessem presentes numa pessoa mais nova.
A televisão começa a despertar para o problema e já têm aparecido episódios de séries médica, como Chicago Med, em que, perante sintomas “inexplicáveis” num doente de 80 e tal anos, alguém pergunta, finalmente: e se tivesse 40 ou 50, a que atribuiriam tudo isto?
Falta, também, e como disse acima, informação virada para quem já não é novo, ou seja, campanhas de sensibilização para este tipo de problemas. E não só, seria bom que nas consultas de rotina – bom, as que se vão conseguindo... – os médicos de família fizessem perguntas sobre a vida e hábitos sexuais da pessoa que estão a consultar, insistindo, se preciso for, para garantir que não têm, ou que não virão a ter, um problema grave. E, já agora, facilitar os testes para as várias DST a pessoas acima dos 65 anos, torná-los, até, rotineiros. É que não é só a SIDA que aumenta, sobem também os casos de sífilis, gonorreia e outras doenças deste foro.
Há ainda uma outra razão para a presença escondida de doenças deste tipo nas mulheres. Mesmo que tenham sido estritamente monógamas, nem sempre se pode dizer o mesmo dos maridos. E graças à lei do secretismo que ainda reina no nosso país, estes, mesmo sabendo que tinham uma DST ou, até, HIV, para que recebiam tratamento, podiam nada dizer às respetivas esposas, apesar de manterem, alegremente, a chamada vida conjugal.
Acham que estou a exagerar? Há uns anos vi uma reportagem que me chocou profundamente sobre um médico que tentava, desesperadamente, que um juiz permitisse a quebra do sigilo sobre doenças contagiosas. Estava a tratar um seropositivo, um homem já de uma certa idade, casado, que passara anos a frequentar prostitutas para além de uma intensa vida sexual com a mulher. Pois bem, recusava-se a informá-la do que se passava, apesar de saber que, sem tratamento preventivo, era fortíssima a probabilidade de vir a ter SIDA em estado avançado. E continuava a “conviver” com ela!
E como esta, quantas mulheres haverá por aí a sofrerem de sintomas que “são da idade” mas que, na realidade, indicam algo bem mais grave e que pode vir a ter consequências fatais? Ou até assintomáticas até ser demasiado tarde para se fazer alguma coisa. É que mesmo que saibam da existência destas doenças é capaz de não lhes ocorrer que o seu precioso maridinho pode ter dado uma facadinha – ou mais – no casamento.
Resumindo, acabar com o mito de que o sexo acaba aos 65 anos e fazer um esforço a sério para impedir a explosão de DST na faixa etária designada como terceira idade e que é cada vez mais numerosa.
Para a semana: Organizemo-nos. Documentos, receitas e muito mais...