Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

82 - Voltemos ao idadismo

Por lapso, publiquei este texto domingo passado no blogue errado, peço imensa desculpa por este lapso.

Tenho acompanhado, mais ou menos, a atual campanha eleitoral – bom, oficialmente só começa hoje, quem diria... – e a quase total falta de referências à população acima dos 65 anos tem sido chocante. Sobretudo atendendo a que constituímos, agora, uns 24 % da população portuguesa.

Sim, mencionaram-se as pensões, é sempre algo incontornável, mas mais nada. E o pouco que foi dito bateu, como sempre, na tecla da enorme despesa com as ditas e nos problemas que o envelhecimento da população acarreta. Até a célebre história da avozinha da queridinha Mortágua demonstra uma tremenda dose de idadismo. É que esmiuçadas as coisas, tentou passar a imagem da velhinha, coitadinha, que entrou em pânico porque, devido à idade, já não sabe analisar as coisas e precisa que alguém – um governo de esquerda, claro – tome conta dela.

Sou otimista, como já tenho referido várias vezes, e tinha, por isso, uma vaga esperança de ver alguém a olhar para este setor de um modo positivo. Esqueci-me, é claro, de duas coisas. Uma, estamos atrasados nesse tal envelhecimento em relação a vários países e, dois, a ideia do estado social, muito popular na Europa e, especialmente em Portugal, exacerba, e de que modo, o idadismo económico que permeia toda a nossa sociedade.

Basicamente, arranjámos um sistema de pensões que funcionava lindamente quando a esperança média de vida era inferior a 65 anos, mas que é, agora, cada vez mais absurdo sem que nada se faça para o mudar porque iria tocar nas sacrossantas “expectativas”. Pior ainda, continuamos a ver os acima dessa idade como a exceção e como pessoas frágeis, incapazes e com a morte prestes a bater-lhes à porta. Só que, como já tenho referido, as coisas são cada vez menos assim e a maioria dos portugueses com 70 (ou mais) anos está ali para as curvas, para falar bem e depressa, e pode muito bem continuar assim durante mais dez, quinze ou, com sorte, vinte antes de começar a sofrer algum declínio das suas capacidades.

Pois bem, o que eu teria gostado de ver neste período quase eleitoral seria algum partido, algum político, a referir-se aos acima de 65 anos como aquilo que são, de facto: um tremendo potencial ignorado de experiência e conhecimentos que, bem aproveitado, poderia ser um contributo valiosíssimo para a nossa economia e para a nossa sociedade e não o peso morto ou, pior ainda, nocivo, que nos querem fazer crer que somos.

Sim, há quem chegue a essas idades com problemas de saúde, físicos ou mentais, mas são cada vez menos. E, é claro, devem ser apoiados, mas apoiados a sério e não da boca para fora como acontece agora, em que se pretende dar tudo a todos, precisem ou não, e acaba por não haver nada para ninguém.

À força de ouvirem dizer que os problemas da Segurança Social se devem ao “envelhecimento da população” e que é preciso aumentar a natalidade – ou deixar entrar gente sem controlo – para podermos continuar a dar as pensões existentes e as que estão quase a chegar, será surpresa assistirmos a atitudes permanentes de idadismo, sobretudo entre os mais novos?

E, muito francamente, o que fazemos para o combater? Bom, o primeiro passo seria reconhecer a sua existência! Só que os que berram por casas de banho nas escolas para os que se “sentem raparigas” viram as costas a este problema que, para além de bem real, afeta uma fatia considerável da nossa população.

Basicamente, nada se faz para combater ideias preconcebidas sobre quem vai para novo. Como achar que não sabem lidar com informática por causa da idade que têm. Pois, aqui fica uma novidade, a verdadeira razão é nunca terem aprendido e, pior ainda, estarem sempre a ouvir dizer que são demasiado velhos para isso – bem fez a Rainha Isabel que aos 80 e muitos pôs um dos netos a ensiná-la a usar o Facebook e outras redes sociais.

E quanto a um contributo mais visível para a economia, já repararam nos inúmeros cafés, lojas e restaurantes em que os donos / funcionários são bastante idosos? E o setor rural, com aldeias só de idosos que continuam a cultivar a terra e a cuidar de animais bem já na idade da reforma? É que, pelo que vemos, a “inutilidade” e “incapacidade” dos idosos não se aplica a quem trabalha por conta própria ou na agricultura...

Mas quando se fala em aumentar a idade da reforma, lá veem os berros contra de sindicatos e de organizações supostamente defensoras da terceira idade. Que tal deixar essa decisão para quem trabalha e atinge uma determinada idade? Mais ainda, que me dizem a criar incentivos para quem der emprego a pessoas acima dos 50 anos, por exemplo? Acreditem, não durariam muito tempo, as empresas em breve veriam as enormes vantagens de os contratarem – sim, sei que seria concorrência aos jovens, mas poderia ser um incentivo para que estes olhassem de outro modo para o mundo do trabalho e mostrassem a tal iniciativa que nos estão sempre a afirmar que têm a rodos, ao contrário dos “velhotes”.

É claro que se ficamos à espera que as coisas mudem por si, bom, a fazer fé no que vemos nesta campanha, o melhor é arranjarmos um cadeirão bem confortável enquanto esperamos. Temos, isso sim, de tentar dar o exemplo, mostrando que não nos deixamos ficar no nicho do “inútil, coitadinho”, do “peso morto para a economia”, da “desgraça para a Segurança Social” em que tentam enfiar-nos. Ou seja, mexermo-nos, criar – ou aproveitar – oportunidades, não ficarmos parados à espera do fim, gratos pelas migalhas de atenção que nos queiram dar.

E se pensam que falo por falar, posso dizer-vos que já tenho mais de 70 anos e continuo a trabalhar em pleno como freelancer...

Para a semana: Congelar é o que dá! Sobretudo para quem cozinha para um...

10 comentários

Comentar post