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Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

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62 - Mitos do envelhecimento da população

O grande pânico generalizado na nossa sociedade sobre o envelhecimento da população assenta, essencialmente, em duas bases: o aumento dos custos com a saúde e a redução da população ativa e futuramente ativa em relação à “inútil” – leia-se, a que está reformada. Só que estudos em países que iniciaram esta inversão muito antes de nós provam precisamente o contrário.

Só uma pequena nota: entre os países do Ocidente nós fomos dos últimos a ver este salto na esperança média de vida e fomos também um dos que mantiveram uma elevada taxa de analfabetismo até à época atual. Sendo assim, iremos passar, certamente, por um período de turbulência antes de “a poeira assentar”.

Comecemos pelos custos da saúde. A ideia subjacente à crença no seu disparo está, muito simplesmente, na “certeza” de que o envelhecimento acarreta, inevitavelmente, o aparecimento de graves doenças físicas e mentais. Só que... pequeno detalhe, o aumento da esperança média de vida significa, acima de tudo, que o estado de saúde geral da população melhorou.

Um estudo de um professor da Universidade de Stanford indica que esse aumento da esperança de vida vem acompanhado da chamada “compressão da morbidade”. E o que é isto? Pois bem, é um processo pelo qual o aparecimento de doenças crónicas não transmissíveis é levado o mais possível para perto da morte da pessoa. Ou seja, temos cada vez mais anos de vida saudável. O mesmo estudo diz também que temos agora duas vezes e meia mais probabilidades de chegar aos sessenta anos sem qualquer doença crónica do que tínhamos há um século.

Resumindo, em vez de “quanto mais velhos somos, mais doentes ficamos” o que se passa é que “quando mais envelhecemos, mais saudáveis fomos”, o que se traduz, claro, em poupanças nas despesas de saúde. Um estudo em 33 países ricos descobriu, até, uma correlação negativa entre longevidade da população e gastos com a saúde.

Repito, o nosso país é um pouco diferente, temos uma forte percentagem de não novos que sofrem de problemas de saúde vindos de trás mas que, devido às peculiaridades da nossa sociedade – nomeadamente políticas – só agora estão a receber algum acompanhamento (com uma grande dose de sorte, claro, face ao estado atual do nosso SNS). Por isso os nossos números poderão não refletir ainda o que se passa noutros países da mesma esfera económica.

Em países ocidentais já bastante avançados nesta cena do envelhecimento da população vemos inúmeras pessoas de 90 e até de 100 anos perfeitamente saudáveis, ativas e capazes de uma vida independente, ou seja, o oposto da ideia generalizada entre nós. E é esse o nosso futuro, sobretudo com as pessoas que estão agora a chegar à idade convencional da reforma.

Não acreditam? Olhem à vossa volta, façam uns inquéritos discretos e ficarão surpreendidos com a idade real de algumas pessoas que agem como e fossem no mínimo vários anos mais novas.

Resumindo, o envelhecimento da população não leva ao disparo das despesas com a saúde, muito pelo contrário, estas sofrem até uma redução durante uma boa parte do seu tempo de vida.

Já agora, seria curioso ver uma comparação entre os gastos de saúde com idosos no nosso país e os com pessoas menos jovens devido a razões de comportamento: droga, acidentes, doenças sexualmente transmissíveis...

Passemos agora à parte da redução da população ativa. Muito francamente, o que está errado neste cenário é precisamente o modo como se define “população ativa”. Já falei anteriormente no ridículo de manter – ou aumentar apenas em uns meses – a idade da reforma, nomeadamente em Falemos da reforma. No nosso caso temos ainda o absurdo das “carreiras”, que levam a valores da reforma que nada têm a ver com os descontos feitos, mais as muitas reformas antecipadas por razões diversas e nem sempre verdadeiras.

Em vários países não há reforma para a vida, ou seja, as pessoas têm apenas o que puseram num fundo de reforma (o esquema é, o empregador tem um valor percentual máximo para o que ali põe e que tem de ser igual ao que o empregado decide descontar – quanto mais este puser no fundo, mais o “patrão” tem de pôr). Ora isto encoraja, para além da poupança, a haver vida depois da reforma, nomeadamente em outras profissões ou empreendimentos, como também já referi noutros posts. Ou seja, ser reformado não significa ser improdutivo.

Mas mesmo sem isso, notemos que o número de pessoas com a chamada reforma social tende a diminuir, uma vez que muitos estão atualmente nessas circunstâncias por não terem podido descontar para uma reforma durante o Estado Novo. O valor médio das reformas também tende a aumentar, criando, assim, uma camada populacional “não ativa” com grande poder económico e que gasta uma boa maquia em atividades de lazer, viagens, cuidados pessoais, etc., isto para além do fluxo de dinheiro para as camadas mais jovens sob a forma de presentes e ajudas. Ou seja, em vez de serem um peso na economia são, isso sim, um dos seus impulsionadores.

Um estudo do MIT AgeLab chama-lhe a “economia da longevidade” e diz que as pessoas acima dos 50 anos nos EUA controlam 77 % do património líquido doméstico do país, apesar de serem apenas 32 % da população.

E podia ser também o nosso caso se pusermos de parte essa cena de os “velhinhos, coitadinhos” e passarmos a ver as pessoas acima de uma certa idade como aquilo que realmente são: um enorme capital social de pessoas saudáveis, educadas e com experiência profissional e de vida que desperdiçamos atualmente, como aliás acontece com muitas outras coisas neste nosso país a viver à sombra do socialismo e das suas teorias de “proteção” das pessoas que, vistas bem as coisas, não protegem ninguém, hipotecam apenas o futuro.

Como uma última nota, li recentemente o livro “O Envelhecimento da Sociedade Portuguesa” de Maria João Valente Rosa (Fundação Francisco Manuel dos Santos) que achei muito pertinente para este tema, particularmente o que diz na Parte 4 sobre o Ciclo da Vida.

Para a semana: Nutrição Extremamente importante se queremos um ir para novo saudável e ativo