44 - Idadismo II
Voltamos, mais uma vez, ao único tipo de discriminação que continua a ser bem aceite, por muito woke que seja a sociedade: os idosos. E há várias razões para isso – quer dizer, para ser ignorada, não para existir.
A primeira razão é que, ao contrário com o que se passa com raça e sexo, não somos vítimas dela durante uma boa parte da nossa vida. Ou seja, só nos abrange após uma longa vivência, sendo, pois, muito mais subtil do que os outros tipos. Ao fim e ao cabo, a nossa raça, por exemplo, está connosco desde que nascemos, mas só chegamos a “velhos” após bastantes anos.
Mas há mais. Durante toda essa longa jornada somos, muitas vezes, culpados de exercer essa mesma discriminação contra quem já atingiu a meta, digamos. Ou seja, durante a nossa vida temos dois papéis em relação ao idadismo: primeiro como atuantes, depois como vítimas.
Pior ainda, muitas dessas atitudes discriminatórias são-nos incutidas, sem sequer darmos por isso, literalmente desde o berço. Crescemos a pensar nos idosos como pessoas frágeis, confusas, com todo o tipo de problemas e que o que querem é “sopa e pantufas”, deixando de contribuir para a sociedade.
Acham que não? Quantos filmes e séries têm bons papéis para idosos? E não me refiro ao “velhinho” ou à “avó” que dão bons conselhos e têm uma imagem mais do que tradicional. Não! Idosos como os que há agora, pelo menos em muitos países, cheios de força, em pleno uso das suas faculdades mentais e com projetos de vida e atividades de todos os tipos.
E não há a mínima pressão para alterar essa situação. Hoje em dia não há filme ou série que se preze que não tenha quotas (oficiais ou não) de raças e de não heterossexuais, por muito absurdas que sejam – como vermos Ana Bolena a ser representada por uma atriz negra. Mas a pressão para essa “igualdade” desaparece quando se fala de idade.
E acreditem, o idadismo é bem pior do que os outros tipos de discriminação porque nos abrange a todos e por não existir abertamente. Sim, é muito fácil acreditar na “bondade” de uma idade da reforma obrigatória aos 65 anos quando a esperança de vida é de 85, mas se analisarmos bem as coisas acabamos por concluir que a verdadeira razão é essas pessoas serem vistas como inaptas para o trabalho apenas pela sua idade.
Sim, há pessoas que precisam de acompanhamento quando os anos começam a pesar. Mas há estudos que provam que, numa sociedade com uma atitude diferente, isso acontece bem mais tarde. É que à força de crescermos e vivermos com a ideia de idoso = incapaz, quando chegamos à tal idade mágica já interiorizámos de tal modo o conceito que é assim que nos sentimos.
Quantas mulheres, perante o início da menopausa, sentem que a sua vida acabou, que já não são mulheres a sério? Quantas pessoas largam ou nem iniciam certas atividades porque se acham demasiado velhas para isso, mesmo que estejam “ali para as curvas”, falando bom português?
A separação cada vez maior que existe na nossa sociedade entre quem vai para novo e os que ainda não chegaram lá também contribui bastante para esta situação. Ao crescerem, as crianças veem que os idosos vivem à parte da restante sociedade e internalizam a ideia de que são seres diferentes. E não falo apenas de lares e similares, no dia a dia, quantas pessoas idosas encontram em posições “normais”, digamos, como professores, empregados de comércio, etc.?
E, repito, a atitude dos nossos governantes também não ajuda. Quando dão benesses como passes gratuitos a todos os que têm mais de 65 anos, qual é a imagem que isso transmite aos mais novos? Pois bem, de que os idosos são incapazes de cuidar de si, que são um fardo para quem trabalha.
Dir-me-ão que também há benesses “cegas” para crianças e jovens. Sim, mas o seu efeito psicológico é diferente. Esses jovens não trabalham, por definição, por isso qualquer tratamento diferente seria com base nos recursos económicos da família, nada tendo a ver com eles. Mas os idosos trabalharam, de um modo ou de outro, por isso uma benesse igual significa pô-los todos no mesmo saco, por muito diferentes que sejam as suas capacidades económicas. Ou seja, o seu único fator comum é a idade.
Como mudar tudo isto? Bom, muito francamente, não sei. Só posso dizer que talvez fosse boa ideia analisar o que se passa em alguns países em que a imagem dos idosos é totalmente diferente. O Japão, por exemplo. Talvez não seja por acaso que, no tempo em que viajava, quando encontrava “velhotes” japoneses, pois bem, tinham mais energia e prazer de viver do que eu apesar de terem umas décadas a mais...
É que, ao contrário de outras discriminações, esta é mais difícil de detetar e de combater. Muito simplesmente, há uma fronteira muito ténue entre cuidar de pessoas que, pela sua idade e estado de saúde não o podem fazer e considerar que todas as pessoas acima de uma certa idade têm esses mesmos problemas. E vermos na TV e no cinema idosos que não são “só” os avós mas sim pessoas que viajam, trabalham, têm vida social – e romântica, porque não – daria uma enorme ajuda, talvez não para nós mas pelos menos para as novíssimas gerações.
Voltarei a este assunto em posts futuros.
Para a semana: E é verão. Alguns conselhos para ter um bom (e saudável) verão