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Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

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Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

42 - Idadismo I

É curioso que numa época em que tanto se fala de discriminação e de igualdades de todos os tipos os idosos nunca sejam sequer mencionados. Sim, o mesmo Governo que lança programas escolares para alertar para transexuais e quejandos está na linha da frente quando se trata de pôr quem vai para novo num cantinho. E o mesmo se aplica à sociedade em geral.

Já estamos todos, certamente, mais do que fartos dos choros e ranger de dentes pelo tão badalado envelhecimento da sociedade portuguesa. Sim, é um facto de que a pirâmide etária é agora quase um cubo e está a caminho de se tornar uma pirâmide invertida, como aliás referi no primeiro post deste blogue, Somos pioneiros.

Mas o problema está em, quando falam neste assunto, fazem-no como se tudo o mais na sociedade estivesse na mesma. Ou seja, como se os idosos de agora fossem como os de há umas décadas atrás, física e mentalmente. Ora isso não é claramente verdade, não é por acaso que se anda a pensar muito a sério em reclassificar a atual tabela etária, digamos, prolongando a meia idade muito para lá dos 65 anos. E há até quem chame quarta idade ao período para lá dos 80, uma vez que este período corresponde, de facto, ao que era a terceira idade de há bem pouco tempo.

Só que... para além da falsa comiseração pelos “coitadinhos dos velhinhos”, uma expressão que, diga-se de passagem, sempre me irritou, o que é que acontece na prática? Pouco, ou antes, nada.

Sim, a idade da reforma no Estado aumentou ligeiramente, mas continua a ser obrigatória numa idade absurdamente baixa atendendo à esperança de vida atual. E sim, sei que os sindicatos estão contra qualquer aumento, por eles até baixava para os 50! Já agora, não acredito que as manifestações violentíssimas em França tivessem minimamente a ver com este assunto.

Ou seja, aos 66 e tais, vai para casa que és inútil! Muito francamente, isso não é discriminação? Sim, sei que há quem, com essa idade, já não tenha condições para trabalhar, mas que tal tornar a reforma voluntária? Ou seja, a idade fixada seria apenas a data a partir da qual a pessoa poderia reformar-se se o quisesse fazer.

Mais ainda, há profissões desgastantes que até justificam uma reforma antecipada. Só que em vez de essas pessoas serem afastadas de uma vida útil, não seria bem melhor terem a opção de adquirirem novos conhecimentos e novas competências para se renovarem numa nova profissão?

Em países em que o aumento de pessoas acima dos 65 anos já se verifica há uns anos assistimos ao fenómeno de muitas delas mudarem totalmente o rumo das suas vidas. Médicos que se tornam marceneiros, advogados que passam a dedicar-se à agricultura, enfim, uma alteração radical do que até então faziam.

É que sempre me meteu confusão esta coisa de “hoje és útil, amanhã (literalmente) não serves para nada”.

A idade impede de fazer cirurgias com segurança? E depois? Não deixam de ser médicos e podem ser muito úteis noutras áreas, como médicos de família, por exemplo, com uma pequena reciclagem. Ser camionista de longo curso deixa de ser viável? Tudo bem, há certamente outros talentos e gostos mesmo a calhar para outra profissão.

Curiosamente, ou talvez não, no setor privado e, sobretudo, em quem trabalha por conta própria, a situação é bem diferente. Mas também o esquema de reformas não é o mesmo... Mais ainda, há quem prefira um eletricista ou canalizador de uma certa idade, há mais garantias de que sabe o que faz. E quantas lojas e cafés têm à sua frente pessoas que, pelo esquema vigente, já deviam há muito estar em casa?

É mais do que altura de vermos esta fatia considerável da população como uma mais-valia para o país e não como um peso morto. E isso passa por encorajar a aprendizagem continuada das pessoas ao longo de toda a vida, tornando-a, até, obrigatória. Reparem que disse aprendizagem e não educação, ou seja, não é só o “saber dos livros”, há muitas outras coisas que se podem aprender e que dão, no mínimo, uma boa ocupação do tempo terrivelmente livre do pós-reforma.

Tem-se visto até noutros países que pessoas com profissões muito intelectuais têm tendência a escolher nos últimos anos de vida atividades mais manuais e que muitas vezes se baseiam em gostos pessoais nunca seguidos por pressões familiares ou outras.

Passa também por ir mudando as mentalidades. É que muitas vezes este idadismo vem até de quem está na faixa etária abrangida por ele. Sabem, o “Na minha idade já não vale a pena”, “Burro velho não aprende línguas”, “Com a minha idade preciso é de sopas e descanso” e muitas outras frases feitas que, como explicarei mais detalhamento num outro post desta série dedicada a este fenómeno, nos afetam mais do que imaginamos.

A ênfase na nossa sociedade devia estar em ver os reformados, oficiais ou não, como pessoas com capacidades e competências diversas e valiosas e não como um poço sem fundo para a Segurança Social e Fundos de Reformas.

No fundo é um pouco como o que se passou durante a Segunda Guerra Mundial, em que as mulheres passaram subitamente de “bibelots” a pessoas competentes e capazes, deixando também subitamente de o ser mal a guerra acabou. E tal como muitas delas se revoltaram contra o “regresso à normalidade”, está na altura de os que vão para novos fazerem o mesmo e exigirem serem considerados como membros de pleno direito da sociedade que construíram.

Para a semana: Dormir bem é preciso. Pequenos conselhos para uma noite melhor.

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