21 - Família não há só uma
Nesta época do ano, tão pertinho do Natal, é normalíssimo pensarmos em família. Ou, mais propriamente, na falta dela.
A solidão não é apanágio da idade, pode acontecer a qualquer um, mas, como ouvimos frequentemente na televisão e não só, ataca com toda a força os menos novos, digamos, podendo levar a gravíssimas depressões, sobretudo nesta época que se quer festiva.
E há variadíssimas razões para um idoso não ter familiares à sua volta neste período.
Pode nunca ter tido uma grande família e a pouca que tinha ter desaparecido com o passar dos anos. Ou ter perdido os filhos por doença, acidente ou uma outra causa. Ou a família estar noutra parte do país, sem possibilidades de se deslocar facilmente ou, até, caso muito frequente, noutro país. Ou os seus filhos pertencerem à geração para quem um Natal em família é uma tradição antiquada, preferindo tirar uns dias na neve ou simplesmente de férias. Ou, sejamos sinceros, as relações não serem muito boas...
Seja como for, e, repito, isto não se aplica apenas a esta época, há muitos idosos sem contacto com a sua família.
Refiro-me, claro, à família biológica. Mas numa época em que tanta coisa muda, não será altura de repensar também este conceito? Passo a explicar.
É claro que a família biológica a que pertencemos é-o sempre, por muito que não se goste dela ou por muito tensas que sejam as relações entre os seus diversos elementos. Mas não tem, necessariamente, de ser a nossa única família, nem sequer a principal.
Se pensarem um pouco, recordarão certamente amigos de quem eram mais próximos do que dos vossos irmãos ou primos. Só que... bom, não eram mesmo família e não os viam como tal, uma vez que a ênfase tem sido sempre dada aos laços de sangue.
Pois o que eu digo é, esqueçam tudo isso! Olhem à vossa volta, com quem passam muito do vosso tempo? A quem recorrem quando algo de bom ou de mau acontece? Com quem costumam conviver? De quem sentem verdadeiramente a falta se calha estarem uns dias sem se verem?
É essa a vossa verdadeira família!
Podem estar a pensar, mas, eu não tenho nada disso, fui perdendo os amigos ao longo do tempo e nunca criei novos. Isso condena-me a viver em solidão?
Não!
Um dos fatores considerados importantes para um envelhecimento saudável é ter uma boa vida social. Tenho mencionado isso de passagem noutros posts, mas nunca é demais realçar o facto de ser algo imprescindível, sobretudo para quem não tem uma família “verdadeira” próxima, em todas as aceções deste termo.
A tendência de quem está nessa situação é ficar a remoer no que não tem e a imaginar o que poderia ser, entrando numa espiral de depressão que pode ter consequências gravíssimas. A minha sugestão é que mude totalmente o seu enfoque. Ou seja, em vez de pensar no que não tem, ou perdeu, ou desejaria ter, olhe à sua volta e pense no que tem.
Frequenta um centro de dia? Está num lar? Pois bem, em vez de se martirizar por não estar na “sua casinha” ou com os seus, tente criar amizades ali. Ao fim e ao cabo, não é onde passa uma boa parte do seu tempo? E quem sabe? Poderá até descobrir pessoas extremamente interessantes e com quem acabe por adorar conviver.
Absurdo? Ora pensemos um pouco. Durante toda a nossa vida, infância e adolescência incluídas, convivemos maioritariamente com pessoas da nossa faixa etária. Porque é que as coisas têm de ser diferentes nos últimos anos?
Não frequenta nenhum sítio desses? Nem tudo está perdido. Sabe quantas pessoas nas mesmas circunstâncias existem no seu prédio, na sua rua? Já tentou falar com elas, passar de um simples olá a um pouco mais de convívio, sei lá, uma ida às compras partilhada, um chá, há tantas oportunidades de conhecer gente sem ter de ir muito longe.
Nem tudo será fácil, claro, há fortíssimas probabilidades de encontrar muitos “sapos” antes de achar, finalmente, um “diamante”, mas, acredite, todo esse esforço vale bem a pena. E pessoa a pessoa, criará assim a sua nova família.
Família esta que tem a enorme vantagem de ter sido escolhida por si. Sim, quem não tem um tio totalmente desagradável, um primo que se suspira ver pelas costas, mas que se toleram porque “são família”? Pois é...
Mas não caia no extremo oposto de se começar a dar com gente que nem lhe agrada ou, pior ainda, que lhe desagrada, só para não estar só. Isso seria trocar uma família biológica disfuncional por outra do mesmo calibre, mas que não se tem sequer a “obrigação” de aturar.
E como sociedade, o que podemos fazer? Bom, muito.
Quanto mais locais e atividades de convívio arranjarmos para os não muito novos, maiores são as probabilidades de estes virem a ter a tal família “por gosto”. E, a um nível mais pessoal, olhem também à vossa volta. Já viram com certeza idosos na vossa zona – ou até no vosso prédio – sempre sozinhos. Tentem falar com eles, vão ver, será fácil, muitos estão esfaimados por contacto humano e reagem prontamente à mínima tentativa de aproximação.
E se vivem sós, não os deixem simplesmente ao abandono só porque “não são família”. Bom, parto do princípio que têm boas relações com os vossos familiares... Não precisam de ter uma relação muito chegada, se não quiserem, mas tentem manter algum contacto, tentem minorar o seu isolamento.
E se têm filhos pequenos, porque não “adotar” um avô ou uma avó? Em muitas famílias, as crianças crescem atualmente quase sem contacto real com os avós por estes viverem noutra terra. Mas o contacto entre gerações é muito importante e, se lhe fosse dada mais ênfase, talvez houvesse menos idosos ao abandono.
Já agora, se o fizer, não largue o adotado em épocas importantes como o Natal, só porque não é conveniente. Pense, se fosse uma criança, não o faria.
A ideia principal aqui é que já é mais do que altura de deixarmos de pensar em família como algo a que se está obrigatoriamente ligado pela hereditariedade. Com o aumento galopante da esperança de vida e a diáspora das populações, temos de começar a ver muito a sério a família como um grupo de pessoas de quem gostamos e a quem somos chegados, nos bons e maus momentos.
Como disse alguém, e muito bem: amigos são a família que escolhemos.
E já agora, se está sozinho na noite de Natal, indague, veja se há lares ou outras instituições com falta de pessoal nessa data e ofereça-se para dar algum apoio – estará acompanhado e, acima de tudo, ajudará outras pessoas. E não é esse o verdadeiro espírito de Natal?
Para a semana: Resoluções de Ano Novo. Sim, ainda falta uma semana, mas deste modo, começa-se bem o ano...