183 - Ajuda necessária
Decidi, mais uma vez, alterar o tema que tinha proposto para esta semana, é que, face à catástrofe que o nosso país está a viver vieram-me à mente algumas ideias referentes à população de mais idade e mais vulnerável atingida por estes acontecimentos.
Sei bem que é sempre trágico perder a casa, os bens, uma empresa, mas acho que o é bem mais quando a pessoa que se vê nessa situação já tem uma idade avançada, faltando-lhe, quase sempre, forças e vontade para recomeçar praticamente do zero numa altura em que pensava ter deixado para trás a labuta de tentar estabelecer a sua vida.
Mais ainda, e tal como referi em A propósito dos incêndios, “para quem já tem uma certa idade, uma casa não é apenas uma construção e o seu recheio, tudo isso substituível. É, sim, o local onde passaram uma boa parte da sua vida – ou até toda, em vários casos – e onde cada recanto, cada racha, cada mancha, está associado a uma ou várias recordações. Ou seja, não estamos a falar de uma casa mas sim de um lar, em que ser bom ou mau em termos materiais não é o que mais conta. E isso é impossível de reconstruir.”
Ou seja, a perda do seu lar é sentida ainda mais profundamente.
Mas restringindo-me à parte prática, tem-se falado muito em seguros e ajudas aos afetados e à necessidade de agilizar toda a burocracia tão “indispensável” no nosso país para as menores coisas.
Começando pelos seguros, fica-me a dúvida: será que muitos dos idosos das aldeias que ficaram isoladas os têm? São pessoas que viveram – ou vivem, ainda – de uma agricultura de subsistência e pouco mais, com parcas reformas e pouco informados de “modernices” dessas. Não são, também, um público-alvo apetecível para as seguradoras, duvido, até, que os seus serviços cheguem até elas.
Ou seja, mesmo se a sua casa tiver sido arrasada, não há seguro para acionar e resolver parte da questão.
Há, claro, as ajudas disponibilizadas pelas várias Câmaras, com portais criados para a inscrição de quem queira recorrer a elas. Só que... mesmo que haja Internet nesses locais, e lembro que muitos continuam sem luz, acham mesmo que essas pessoas a sabem usar para se poderem inscrever? Mais ainda, saberão, sequer, da existência desses fundos?
E, infelizmente, este problema não é exclusivo de pequenas aldeias. Quantos em cidades como Leiria ou Coimbra nunca usaram um computador? Para quantos a Internet é um bicho-de-sete-cabeças? E o pior é que há fortes probabilidades de estas pessoas serem precisamente as que mais precisam de ajuda.
Seria bom que as Juntas de Freguesia tivessem isto em mente e criassem brigadas móveis que fossem de porta em porta a ver quem precisava de assistência para pedir a ajuda de que necessitam. Seria, por exemplo, uma excelente oportunidade para jovens da zona fazerem um pouco de voluntariado.
Voltando ao que se passou, houve algumas coisas que me chocaram um pouco, como expliquei num post do meu outro blogue, Luísa Opina.
Sei que houve milhentas situações graves a que acorrer durante estes tempos de crise, mesmo assim ficou-me a ideia de que, pelo menos nos primeiros dias, não se pensou na tal “população envelhecida” de que tanto se fala para justificar a política de portas abertas à imigração. Vimos aldeias isoladas de que nada se soube durante três, quatro dias, homens de uma certa idade que morreram ao tentarem tapar o telhado para que a casa não ficasse ainda mais destruída, enfim, inúmeros casos que só não correram pior devido à solidariedade de vizinhos mais novos.
Sim, Bombeiros, GNR e outros elementos foram incansáveis, mas não conseguiam chegar a todo o lado e acho que nunca entenderei porque é que as Forças Armadas não foram acionadas desde a primeira hora – e estavam a postos, mas nada podiam fazer enquanto não recebessem ordens para avançar.
Pensando, agora, no futuro, gostaria de sugerir algumas coisinhas que ajudariam, certamente, quem já tem uma certa idade e vive em aldeias de acessos mais ou menos complicados.
A primeira tem a ver com comunicações. Lembram-se de ter havido em tempos um programa de distribuição de telemóveis a pastores para minorar o seu isolamento? Bom, em caso de catástrofes, há a hipótese de não funcionarem por a rede ir abaixo. Mesmo assim, seria boa ideia garantir que há pelo menos uma pessoa nessa zona com um. Melhor ainda, um telefone por satélite a ser usado apenas em caso de emergência e se não houver rede. Sim, são caros, mas há tanto dinheiro mal gasto neste país, este ajudaria, pelo menos, a deixar um pouco mais seguras pessoas vulneráveis – já agora, no outro blogue sugeri que as Juntas de Freguesia, Bombeiros e outras entidades responsáveis pela nossa segurança também os tivessem, independentemente da sua localização.
Segundo, levar lá técnicos da Proteção Civil para explicarem o que é ideal ter em casa para o caso de haver uma catástrofe e as atitudes a tomar consoante a situação. Por exemplo, a questão da alimentação – os enlatados não são, exatamente, um hábito nas nossas zonas rurais. É que apesar de essas populações do interior meio desertificado serem muito resistentes devido à vida dura que sempre levaram, há circunstâncias que põem à prova essa sua resistência.
Já agora, este tipo de “educação para catástrofes” devia ser estendida a todos os grupos etários, urbanos ou rurais, a ideia que nos fica sempre que há uma catástrofe grande ou até bem mais pequena (o Apagão) é que não é só o Governo que não está preparado... lembremo-nos do gozo generalizado com que foi recebida a ideia do kit europeu de sobrevivência.
Enfim, ouvimos muito dizer “aprender com o que aconteceu”, o problema é que temos tido várias catástrofes ao longo dos anos e continuamos a ser apanhados desprevenidos – não pela sua chegada, muitas vezes imprevisível, mas em relação ao modo como reagimos para minorar os seus efeitos.
Para a semana: Lares. É mais do que altura de mudar tanto as regras oficiais como as que muitos aplicam aos familiares e amigos dos seus clientes.