167 - Os problemas dos cuidadores
Já mencionei, de passagem, este tema no post Ajudar a geração sanduíche, em que falava dos problemas de quem, já estando na idade da reforma, tem a seu cargo familiares ainda mais idosos. Referi, então, que das pouquíssimas vezes em que este assunto era tratado a nível governamental, a solução era sempre a mesma: atirar dinheiro ao problema.
Criou-se, finalmente, a figura do “cuidador informal”, mas, lendo alguns dos requisitos, fica-se a pensar que não abrange muitos casos. Por exemplo,
- Saúde: ter condições de saúde adequadas para cuidar da pessoa.
Hum... e os muitos casais em que um deles tem problemas graves e o outro tem de cuidar dele apesar de também não estar nada bem? E filhas, etc., que, apesar de terem todo o tipo de maleitas têm a seu cargo pessoas idosas?
É claro que, conseguido este estatuto, o que até nem é nada fácil e muito menos rápido, o subsídio sempre dá algum alívio financeiro. Mas, como referi no post acima citado, essa ajuda, apesar de importante sobretudo para quem tem poucos ou nenhuns rendimentos, peca por não cobrir aspetos que podem ser cruciais para os cuidadores.
Andei à procura e até encontrei alguns cursos – quase todos online – para cuidadores informais. Analisei os seus programas e, francamente, pareceram-me muito teóricos e demasiado virados para o tema “onde arranjar subsídios e apoios”, sem grande componente prática aplicável às questões do dia-a-dia. Este site governamental anuncia alguns manuais que, pelo título, até parecem bons, infelizmente a maior parte deles não abre. Num outro site encontrei este, em PDF, que se pode descarregar – fi-lo, mas ainda não o consegui ler todo.
Numa outra altura entrarei em mais detalhes sobre o papel de um cuidador de idosos, o que deve e não deve fazer e como otimizar as coisas para lhe facilitar o trabalho, mas limitar-me-ei aqui aos seus problemas.
E muitos deles são de caráter prático, sobretudo tratando-se de pessoas de idade com alguns problemas de mobilidade ou até acamadas. É que, muito francamente, uma pessoa “normal” não tem formação para mudar uma fralda de um acamado ou fazer-lhe a cama sem o incomodar, dar banho a um idoso tendo em conta a fragilidade da sua pele, dar uma massagem para melhorar a circulação ou, pior ainda, levantá-lo caso tenha caído. Isto para não falar em conceitos básicos de Primeiros Socorros, acima de tudo a chamada ressuscitação cardiopulmonar.
E quando a pessoa que executa estas tarefas também está bem avançada na sua ida para nova, as dificuldades aumentam e podem criar-lhe problemas de saúde mais ou menos graves.
Já o disse anteriormente e repito, não será mais do que altura de postos médicos, juntas de freguesia e similares prestarem atenção a este problema? Seria, certamente, bem mais útil do que a usual choraminguice sobre o “envelhecimento da população”. Que tal darem uma vez por mês ou mais frequentemente, caso haja muita procura, pequenas aulas práticas sobre estas questões para a população da zona com idosos a seu cargo? Acreditem, estariam sempre lotados!
Outra questão que um subsídio – caso se consiga obter um, claro – não resolve é o stress, a sensação de ter o mundo a fechar-se à sua volta, que muitos cuidadores sentem. É que à medida que o estado físico e / ou mental da pessoa a seu cargo se deteriora passa a haver cada vez menos tempo para si, para se dedicar à sua vida e passatempos, às vezes até para uma mera saída, recorrendo-se, cada vez mais, a serviços de entrega ao domicílio ou à boa vontade de um familiar ou vizinho.
Sim, já há serviços de assistência temporária que permitiriam aliviar esse peso durante umas horas, um fim de semana, até. Mas não existem em todo o lado e, acima de tudo, não estão ao alcance de todas as bolsas. É claro que o conselho usualmente dado é o cuidador ter uma boa rede de apoio pessoal que lhe permita ser substituído de vez em quando, mas todos nós sabemos que isso nem sempre é viável.
Ou seja, como sugeri anteriormente, o ideal era, isso sim, existir uma rede pública de apoio gratuita para quem não possa pagar ou a preços acessíveis para quem possa, formada por pessoas fiáveis e com alguma formação que pudessem dar uma folga periódica aos cuidadores, sobretudo os que não têm outra alternativa.
Finalmente, falemos do próprio cuidador. É que a ênfase vai, normalmente, para a pessoa cuidada, passando ao lado do enorme esforço emocional despendido por quem cuida. Pior ainda, sobretudo quando já têm alguma idade e foram criadas “no antigamente”, muitas mulheres cuidadoras sentem-se egoístas se tirarem um tempinho para si e, muito francamente, a sociedade e os que as rodeiam nada fazem para combater essa ideia.
O resultado é termos cuidadores em estado de stress crónico, que se reflete em problemas de sono, por exemplo, o que leva a uma irritabilidade crescente. E, como não somos santos, por muito que queiramos lá bem no fundo acabamos por nos ressentirmos, de certo modo, de toda a situação em que nos vemos. Seria importante terem alguém que lhes lembrasse o que é dito nos aviões quando falam de pôr a máscara: primeiro pomos a nossa e só depois é que ajudamos outras pessoas. É que se vão abaixo, física ou mentalmente, quem cuidará da pessoa a seu cargo? Ou seja, tirar tempo para cuidar de si não é sinal de egoísmo, muito pelo contrário.
Numa altura em que há linhas de apoio para tudo e mais alguma coisa, não seria bom existir uma para cuidadores de idosos, onde pudessem desabafar à vontade? É que muitas vezes nem se trata de pedir conselhos ou opiniões, a pessoa quer, apenas, desabafar o que lhe vai na alma sem receio de julgamentos, uma vez que este tipo de chamadas é anónimo.
De todas as propostas que aqui apresentei, esta seria a mais fácil, barata e rápida de implementar e, garanto, ajudaria muitos a ultrapassarem o drama que acaba por ser cuidar de um idoso que já não consegue cuidar de si.
Para a semana: Escrever as memórias. Está na muito na moda, pelo menos em países de língua inglesa. E “escrever” não é literal, pode ser uma mera gravação áudio ou algo diferente.