Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

165 - A morte de um cônjuge

Bem sei que esta é uma situação que pode acontecer em qualquer idade, mas quando a pessoa sobrevivente, digamos, já tem uma certa idade há complicações adicionais. Só uma pequena explicação, aqui cônjuge não tem o sentido de alguém com quem se está casado mas apenas o de um companheiro de longa data, independentemente do seu sexo ou do estatuto legal da união em causa.

Não irei falar muito da parte psicológica, uma vez que acho que cada caso é um caso e que todos reagimos de modo diferente a uma morte destas. Lembro apenas que um luto tem fases – não necessariamente as mencionadas em livros e filmes... E que embora seja perfeitamente normal e compreensível entrar em depressão após o evento, caso se passem meses e meses sem conseguir sair dela, então está na altura de pedir ajuda profissional.

Na segunda parte de Organizemo-nos referi várias medidas que podemos tomar para o caso “de nos acontecer algo”, medidas essas que facilitarão imenso a vida de quem cá fica. É que já basta ter de lidar com a morte de um ente tão chegado como é um cônjuge, a última coisa de que precisamos é de ter de andar à procura de papeladas, decidir sobre o tipo de funeral, etc., isto para além da muita burocracia ligada a tudo e mais alguma coisa em Portugal.

Passando – finalmente – ao âmago do tema deste post, a primeira coisa que tenho a dizer é repetir o conselho dado a quem ganha uma boa maquia na lotaria ou similares: não faça mudanças imediatas. E sim, sobretudo no caso de um casal não muito novo, estas serão, certamente, inevitáveis, mas tente adiá-las umas semanas ou meses até se sentir mais à vontade para tomar uma decisão mais informada e, acima de tudo, mais calma.

E este é um daqueles casos em que o caso de um viúvo – repito, legal ou não – e de uma viúva podem diferir.

Comecemos pelo caso de um homem. No nosso país, em muitos casais de idade avançada os seus papéis não mudaram nada ou quase nada desde o início da sua relação, refletindo o que era considerado um comportamento “normal” na sociedade de então. Ou seja, há fortes probabilidades de ele nunca ter tratado da lida da casa ou das refeições, sentindo-se, pois, perdido quando se vê só perante tudo isso.

E se tem família chegada, filhos, por exemplo, é muito fácil deixar-se convencer a ir para casa de um deles ou para um lar perante o argumento de “agora, sozinho, como é que se vai governar?”

É aqui que entra o conselho que dei acima. Ou seja, não decida de imediato que é incapaz de cuidar de si, pior ainda, não permita que decidam por si. Deixe passar algum tempo e faça um esforço para se adaptar às novas circunstância em que tem de viver agora. Lembre-se, está sempre a tempo de decidir que, afinal, não consegue mesmo lidar com o dia-a-dia e que estará melhor aceitando uma mudança de ambiente. Já o contrário... será certamente bem mais difícil.

No caso das mulheres, este problema específico não se põe. Não digo que são todas “fadas do lar”, a questão é que quem as rodeia parte do princípio de que cuidarem do lar não vai ser um problema. Mas estes surgem de outra parte, sobretudo em mulheres mais idosas que nunca trabalharam fora de casa.

O paradigma com que começaram a sua vida a dois era muito simplesmente este: casa e filhos competiam à mulher, ganhar dinheiro e cuidar dele era tarefa do homem. E embora os tempos tenham mudado – e de que maneira – muitas continuam a não fazer a menor ideia dos rendimentos que o casal tem nem do modo como estes estão a ser tratados. E verem-se de repente perante uma situação em que tudo isso lhes recai em cima só irá aumentar o sentimento de abandono e de depressão devido à morte do seu companheiro.

Mesmo no caso de terem tido um emprego, muitas deixavam esse tipo de decisões para o parceiro. Mais ainda, como tenho reparado nos últimos anos, há agora muitos homens reformados que, possivelmente para ocuparem uma parte dos seus dias, passaram a ser eles a irem às compras do dia-a-dia. E não uso este termo por acaso, vão mesmo todos os dias ao supermercado. Resultado? As suas respetivas esposas perderam, muitas vezes, a noção do custo das coisas e quando pensam nas pensões que recebem, caso o façam, têm uma noção muito pouco realista – isto para não dizer irrealista – do seu valor real.

Perante tudo isto, é muito fácil aceitarem a ajuda de terceiros, sejam ou não familiares, para lidarem com tudo isto após a morte do seu cônjuge. Só que... essas pessoas podem não ter os seus melhores interesses em mente e acabarem por piorar a sua situação. Repito, não tome decisões apressadas, como passar procurações ou vender coisas, faça, isso sim, um esforço para entender o que realmente se passa de modo a poder tomar decisões informadas. E se precisar mesmo de ajuda, tente contactar um profissional, um contabilista ou um advogado, por exemplo, antes de agir.

É claro que em ambos os casos – homens e mulheres – o ideal seria começarem a preparar-se antes que a tragédia aconteça. Ou seja, no caso deles, garantirem que têm pelo menos as aptidões básicas para se poderem ir safando sozinhos, caso seja necessário. E no caso delas, “descerem à terra” no que diz respeito à sua situação financeira. Sim, bem sei que nem sempre è fácil, lembro-me de ouvir dizer muito em miúda que “uma senhora não fala de dinheiro”. Pior ainda, há homens que mantêm a ideia de que tudo isso não são “assuntos de mulheres”, não partilhando, pois, dados essenciais para o bem-estar futuro da companheira.

Voltarei a este tema, mas desta vez para sugerir estratégias e modos de seguir em frente com a sua vida, independentemente da idade com que perdeu o seu cônjuge.

Para a semana: A propósito das Autárquicas. Mais uma vez, o setor dos que vão para novos esteve ausente das várias campanhas. Como alterar isso?