162 - O dilema dos "idosos" atuais
A inspiração do post desta semana veio de uma newsletter que recebo e que pertence a um site chamado NOLD. Curiosamente, apesar de ser francês, o título vem do inglês, “Never Old”, ou seja, nunca velho. Mas o que me tem feito pensar é o subtítulo da newsletter em questão que, traduzido, dá: “Demasiado velho para ser jovem, demasiado jovem para ser velho”. Ora isto resume, para mim, na perfeição o dilema que quem vai para novo atualmente enfrenta.
Como tenho dito noutros posts e é, aliás, sobejamente conhecido, a esperança média de vida tem aumentado imenso nas últimas décadas, nalguns países um pouco antes de outros, como é o caso de Portugal. E se analisarmos a evolução histórica deste número, a mudança é ainda mais flagrante.
Durante séculos, poucos chegavam a uma idade mais avançada, daí o apreço e respeito pelos idosos nessas sociedades – é que, como as coisas pouco mudavam, eles eram, de facto os depositários da sabedoria da comunidade. Mais recentemente, por exemplo, no século 19 e uma boa parte do 20, a situação era bastante clara, um adulto passava, basicamente, por três fases: jovem adulto, meia idade e terceira idade, sendo esta, na maioria dos casos, de muito curta duração.
E, atendendo à dureza de muitas vidas – trabalho esgotante, gravidezes repetidas, alimentação não cuidada e deficiente, falta de cuidados médicos – os que chegavam à terceira fase sentiam-se, de facto, “idosos” no sentido tradicional do termo, ou seja, pessoas em declínio físico e mental, bons para pantufas, sopa e descanso.
Tudo isto mudou imenso, não só a extensão da vida mas o estado físico e mental de quem entra na que ainda se chama terceira idade. Felizmente, por um lado, é bom sabermos que cada vez mais pessoas têm mais anos de vida e, acima de tudo, de vida com qualidade. Mas, infelizmente, por outro lado, é que nem as nossas sociedades nem nós mesmos estamos preparados para mudar o paradigma com que crescemos.
Sim, a frase “a idade é só um número” já existe há bastante tempo, mas será que foi interiorizada quer por nós quer pelos que nos rodeiam, sobretudo estes? Quantas pessoas de 60, 70 ou até mais se sentem cheias de energia e capazes de tudo, muitas vezes, até, de coisas que não fizeram em mais novos por variadas razões, mas retraem-se porque ouvem por todo o lado que isso “é para jovens” e que já são demasiado velhos para o tentarem?
Só que... não se sentem velhos, bem pelo contrário. Há, até, muitos que, tendo começado a cuidar mais de si, em termos de alimentação e atividade física, quando atingiram uma certa idade, já há muito que não se sentiam tão jovens e capazes de se abrirem a todo um novo mundo de experiências, das tais que são, dizem-lhes, só para jovens.
A propósito, referi anteriormente uma Introdução ao Surf para 65+ na Praia de Carcavelos que terá sido muito popular, a prova é que vai ser repetida agora em finais de setembro, sendo um bom exemplo do que aqui digo, sim, quem associa pessoas com mais de 65 anos ao surf?
Atenção, não me refiro a fazer todo o tipo de maluquices numa tentativa de se agarrar à juventude a todo o custo, isso nunca funciona e pode, até, ter muito más consequências. Não, o ideal será esquecer a idade que tem e pensar mais em termos do que é capaz de fazer. Está em boa forma física e quer experimentar escalada, esquiar, surf? Porque não? Lembre-se, se vir que afinal não consegue, pode sempre desistir ou, melhor ainda, tentar arranjar algo mais adequado às suas capacidades. O importante é não deixar que o tal número, a idade, controle a sua vida.
O mesmo se aplica a atividades intelectuais ou similares. Sempre quis aprender a pintar? A falar alemão? Estudar história, física ou outra coisa? Que importa se tem 70 ou mais anos, experimente. E também aqui, se não conseguir acompanhar o ritmo, olhe à sua volta e veja se encontra um outro modo de obter o que quer.
Pelo que tenho visto, a sociedade começa a mudar, há cada vez mais atividades para pessoas já com uns aninhos e em áreas bastante diversas, de cursos de todos os tipos a caminhadas e outras atividades físicas. Mas a grande questão aqui é que não podemos ficar sentados à espera que esta mudança de paradigma se torne o novo normal. Temos de pensar que as coisas só estão a começar a aparecer porque há procura – como a iniciação ao surf, citada mais acima.
Ou seja, a “revolução” tem de começar por nós, no modo como encaramos a vida e o que é possível. E lembremo-nos de que, com a ênfase atual em ter uma alimentação mais saudável e em fazer exercício, a geração que vem atrás de nós, os que agora têm 40 ou 50 anos, chegarão, muito provavelmente aos 80 cheios “de sangue na guelra” – não é utópico, já acontece em alguns países que iniciaram o chamado “envelhecimento da população” muito antes de nós. E como onde há procura surge inevitavelmente a oferta, não faltarão, certamente, propostas para todo o tipo de atividades destinadas aos que agora muitos ainda chamam “velhinhos”... como referi num post anterior, nem sequer gosto do termo idoso, prefiro longevo.
Quanto a mim, anseio por ver chegado o momento em que as pessoas deixem de enfrentar o dilema do “Demasiado velho para ser jovem, demasiado jovem para ser velho”, fazendo, isso sim, tudo o que as suas capacidades lhes permitam fazer.
Para a semana: Alimentos usuais, pratos diferentes. Sugestões sobre como variar a nossa alimentação usando de modo diferente alimentos corriqueiros.