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Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

160 - Não temer o ir para novo

Há algo muito curioso nas nossas vidas. Durante uma parte dela ansiamos por ser mais velhos do que somos – em crianças queremos ser adolescentes, chega a adolescência passamos a querer ser adultos, enfim, até uma certa idade raras vezes apreciamos as vantagens da idade que temos, concentramo-nos, isso sim, nas suas desvantagens, reais ou imaginadas. Mas passado um certo limiar, que varia de pessoa para pessoa, dá-se precisamente o contrário – e não só queremos parar o tempo por todos os meios possíveis, tememos, sentimos um verdadeiro pavor só de pensar na passagem imparável dos anos.

Em grande parte a culpa até nem é nossa, crescemos e vivemos rodeados de casos mais ou menos explícitos de idadismo, de que tenho falado repetidamente, em particular em Idadismo I, Idadismo II e Voltemos ao idadismo, entre outros posts. E, como tenho explicado, para além de ser o único tipo de discriminação que esta sociedade tão woke aceita e ignora, tem características diferentes de todos os outros, uma vez que o interiorizamos desde cedo. Ou seja, somos nós próprios a associas uma idade avançada a todo o tipo de problemas físicos e mentais e à ideia de inutilidade em termos sociais e financeiros.

Perante isto, não admira que tantos tremam de medo, entrem em verdadeira paranoia quando se veem perto da idade da reforma – ou, até, quando pensam nela... Sim, muitos dizem, “quando estiver reformado vai ser ótimo, vou poder fazer isto ou aquilo”, só que, infelizmente e como muito bem sabemos, a maior parte desses projetos ficam na gaveta.

Em É tão bom já não ser novo falei, precisamente, das muitas vantagens de já ter uns bons aninhos em cima, repetindo, várias vezes, a expressão “Viva ser idoso”. E noutros posts tenho referido, vezes sem conta, que o “idoso” atual já não é o “velhinho” de há uns anos, é, isso sim, em muitos casos, uma pessoa em plena forma física e mental E basta olharem à vossa volta para verem que tenho razão, sobretudo entre os muitos estrangeiros que nos visitam oriundos de países onde esta mudança começou muito antes da nossa.

Sendo assim, porque é que continuamos a temer a inevitável “ida para novo”, associando-a a todo o tipo de desgraças para nós e para os nossos familiares? Bom, o problema é que por muitos bons exemplos que haja à nossa volta e por muito que saibamos que as coisas mudaram, bem no íntimo continuamos a ter a imagem de um idoso incapaz de cuidar de si e com todo o tipo de problemas físicos e, sobretudo, mentais.

Em vez de remarmos contra a maré, sugiro que se abafe essa vozinha que nos murmura futuras desgraças ao ouvido e que nos concentremos em garantir o melhor “ir para novo” possível. E não me refiro a tentar parecer mais novo mas sim a sê-lo, de facto. Ou seja, cuidar da nossa alimentação, fazer exercício regular – repito, não tem de ser nada muito complicado – e manter a mente ágil por meio de aprendizagens constantes, sejam de que tipo forem.

É claro que poderá surgir uma doença, um acidente, algo que descarrile, digamos, os planos cuidadosamente traçados. Mas à parte esse tipo de casos, se começarmos o mais cedo possível a fazer um esforço para estarmos bem e, acima de tudo, saudáveis, no corpo e na mente, o mais certo é chegarmos a uma idade avançada sem darmos por ela.

O mais importante é evitar expressões do tipo, “já não tenho idade para isso” ou, “na minha idade já não consigo” ou, pior ainda, “para os anos que me faltam, não vale a pena” – como disse anteriormente, os anos passam à mesma e, se calhar, em vez dos cinco ou menos que imaginava tem vinte ou mais, ou seja, vale sempre a pena.

Sim, haverá, certamente, coisas que, a partir de uma certa idade temos grande dificuldade em fazer ou até nem conseguimos, mas cada caso é um caso e isso não depende apenas da idade de calendário. Há quem aos 40 já não consiga dar uma boa caminhada sem ficar a deitar os bofes pela boca e outros que aos 80 ainda têm energia para dar e vender.

Mas independentemente do nosso estado físico, que tal aprendermos a desfrutar o momento que passa? Tentar encontrar um prazer, um motivo de alegria diários, por muito pequenos e insignificantes que nos possam parecer. E está sempre a tempo de começar, experimente, faça um esforço para descobrir algo bom todos os dias, o sabor de um chá, um pôr do sol bonito, um cheiro agradável, enfim, não faltam oportunidades se tentarmos ver o lado positivo da vida em vez de estarmos sempre à procura do negativo, da desgraça.

A existência humana é, sem dúvida, composta por ciclos. Já não podemos voltar atrás para apreciar os iniciais – em vez do tal querer ser mais velho – mas agora que somos mais adultos e temos – teoricamente – mais juízo, que tal tomar a decisão de aproveitar ao máximo os que nos faltam? Sim, “os”, plural, do modo como a esperança de vida tem aumentado, sem falar da evolução bem visível na que seria a última camada etária de uma população, quem sabe quantos mais nos restam?

Lembre-se, a ideia é manter-se com qualidade de vida até o mais tarde possível e, embora seja mais fácil quando se começa cedo, qualquer passo que se dê nesse sentido em qualquer idade será sempre produtivo. Além disso, quer queiramos quer não, envelhecer é o nosso destino – bom, há sempre a alternativa, morrer... Sendo assim, não será um disparate temer algo que é absolutamente natural?

Para a semana: Anemia. Muito comum em quem vai para novo, prejudica a qualidade de vida e não só