Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo". E para quem tem em casa alguém avançado nesta viagem. Todos os domingos. Alternarei posts gerais e específicos.

16 - Velhos não são descartáveis

Como todos sabemos, pelo menos ouvimo-lo à saciedade, nunca houve tantos idosos em Portugal – e não só. A proporção é, até, atualmente, de 159 idosos para cada 100 jovens e tem estado sempre a aumentar. Não vou sequer discutir o absurdo que é manter-se os 65 anos como valor para entrar na chamada terceira idade. Direi apenas que o que fazia sentido em 1960, quando a esperança de vida dos homens era de 60,7 anos e das mulheres de 66,4 deixou de o fazer agora. É que em 2020 esses valores eram de 77,7 e 83,4, respetivamente.

Mais ainda, em termos de saúde física e mental uma pessoa de 65 anos na década de 60 era bem diferente de uma com a mesma idade atualmente. Não acreditam? Pensem nos muitos atletas que continuam no auge numa altura em que já deviam ter “arrumado as botas”, nas muitas atividades, físicas e não só, que surgem quase diariamente para os tais “velhinhos coitadinhos”, essa expressão tão querida dos que dizem preocupar-se com o envelhecimento da nossa população mas que, na prática, pouco ou nada fazem.

Como disse no post “Velhos não são lixo” do meu blogue Luísa Opina, temos duas atitudes predominantes no nosso país: lastimar que não haja ocupações ou empregos para idosos, apenas por causa da sua idade, e chorar ainda mais alto quando se fala em aumentar a idade da reforma. Uma atitude esquizofrénica que não parece incomodar ninguém...

Pessoalmente, nunca entendi porque é que pessoas capazes têm de se reformar, queiram ou não, só porque chegaram à idade “certa”. Não poderiam ser reaproveitadas para outras tarefas? Caso o quisessem, claro. Por exemplo, nada impede que um cirurgião que já não tem condições físicas para continuar a operar não possa continuar a trabalhar como médico de família, por exemplo, mediante uma preparação para essas novas tarefas. E sejamos sinceros, a maior parte dos empregos atuais não exigem exatamente um tremendo esforço físico, não há pois nenhuma razão para alguém ser subitamente considerado incapaz para o fazer no dia em que atinge a mágica idade da reforma.

Felizmente para todos nós, começa a haver quem meta “as mãos na massa” e crie novas ocupações para si e não só. Darei dois exemplos, ambos de Lisboa. O primeiro chama-se A avó veio para trabalhar e foi criado por um grupo de avós que gostava de bordar e tricotar. Para além da venda do que fazem, dão também workshops e não só. O seguindo chama-se Um sénior ao domicílio e foi criado por Elena Durán por causa do pai que se reformara. A plataforma inclui pessoas com mais de 55 anos que querem manter-se ativas e têm competências que podem ser úteis a outros, como pequenas reparações, jardinagem, etc.

E há inúmeras outras opções. Na Alemanha, por exemplo, experimentaram criar pré-escolas junto a lares de terceira e idade – quer dizer, no mesmo edifício – e com ligação entre eles. Os idosos que o pretendessem poderiam passar algum tempo com as crianças, brincando com elas, lendo-lhes, conversando... Isso permitiu dar mais atenção individualizada às ditas crianças sem que fosse preciso aumentar o pessoal da escola, ou seja, sem aumento de custos.

Noutros países, por exemplo, muitas das caixas de supermercados têm idosos de serviço aos domingos – ganham um dinheirinho extra e, para quem não tem família ou amigos com quem passar o dia, sempre é uma diversão. Aqui seria visto, claro, como algo terrível, coitadinhos dos velhinhos a trabalharem!

Mas já repararam que esta atitude não abrange as zonas rurais? Aí, bom, é perfeitamente aceitável verem-se pessoas de 80 ou mais a trabalhar nas hortas e nos campos, a cuidar dos animais, tudo. Muito francamente, acho esta reação bem mais saudável!

É que apesar de toda a conversa sobre melhorar a vida dos reformados, cuidar dos idosos, etc., tudo isso não passa de paleio, a verdade é que a partir de uma certa idade – que até costuma ser inferior à da reforma – essas pessoas são vistas como descartáveis. Ou seja, deram o seu contributo, agora devem afastar-se, dar lugar a outras mais novas e, acima de tudo, não fazer ondas nem dar nas vistas, a menos que seja para ilustrar o interesse de alguém, quase sempre um político, pelos ditos “coitadinhos”.

Pois bem, como a reivindicação está mais na moda do que nunca, que tal começarmos a exigir não sermos postos de lado a partir de uma certa altura da vida? Bramar, por exemplo, para que a idade da reforma seja apenas um indicativo e que quem o queira fazer possa continuar a trabalhar sem obstáculos ou comentários depreciativos?

Mais ainda, não seria bom começarmos todos a pensar em profissões e tarefas alternativas que possamos ter e fazer a partir de uma certa idade, nem que seja a tempo parcial?

E há um outro aspeto igualmente triste para quem “vai para novo”. Sim, o mundo mudou muito e continua a mudar a um ritmo cada vez mais acelerado, e muito do que essas pessoas sabiam deixou de ter utilidade direta. Mas isso não significa que não possam ensinar nada às novas gerações, nem só de tecnologia vive o homem – bom, o ser humano, para dar uma de woke. E mesmo em termos práticos, há certamente muito que podiam transmitir, se lhes déssemos uma hipótese, costura, como reparar coisas, culinária, sei lá!

E outras coisas menos tangíveis, certos princípios de vida. Sim, não concordamos, certamente, com todas as ideias de pessoas de uma certa idade, mas o mesmo não acontece com os mais novos entre si? E em vez de os descartarmos à priori, que tal ouvirmos o que têm para dizer e depois, sim, “peneirar” tudo muito bem – quem sabe, poderemos até encontrar alguma pérola escondida!

Para a semana: Cuidemos de nós. Sem obrigações de sair, nem sempre cuidamos de nós e do nosso visual...