17 - Cuidemos de nós
Não, este post não tem a ver com saúde mas com algo totalmente diferente, embora possa afetar, em maior ou menor grau, a saúde psíquica e até física de quem está a “ir para novo”. Refiro-me, muito simplesmente, a cuidados pessoais, basicamente, o modo como nos apresentamos.
Durante a chamada “vida útil”, ou seja, enquanto somos forçados a sair para um emprego, compras ou atividades sociais, cuidamos do nosso corpo e do nosso visual quase diariamente. Sim, há aquela folga em que passamos o dia de robe porque não temos nenhuma obrigação, mas, como tudo o que é diferente da rotina, torna-se até um prazer.
O problema é quando a reforma ou uma mudança no estilo de vida devido à idade eliminam praticamente todas as nossas obrigações. E é facílimo passar do “deixa andar” dos primeiros tempos, apetecível porque é novidade, ao desleixo total porque “não vale a pena”.
Sim, para muitos de nós é um alívio saber que não temos de nos vestir “como deve ser”, maquilhar, etc., para ir trabalhar. E isso não é exclusivo das mulheres, muitos homens respiram de satisfação por deixarem de ter de usar um fato, gravata ou, no mínimo uma roupa mais formal.
Mas, repito, os problemas surgem quando os dias vão passando e de uma roupa informal se passa a nem sequer largar o pijama (ou camisa de noite). Se há mais de uma pessoa em casa, a situação raras vezes chega a extremos. Mas para quem fica sozinho, este fator adicionado à falta de obrigações exteriores pode ter consequências graves.
Não estou a dizer que devamos continuar a arranjar-nos como dantes, ao fim e ao cabo a nossa vida mudou e é preciso acompanhar essa mudança. Não, o que tento realçar aqui é que é importantíssimo não nos deixarmos ir totalmente abaixo.
E isto passa por várias facetas.
Por exemplo, a roupa. Se tinha um emprego que exigia uma certa formalidade no vestuário, para quê manter o armário cheio de roupa que muito possivelmente não voltará a usar ou só muito raramente? Se a “trocar” por peças mais adequadas à vida que passou a ter, mais confortáveis e fáceis de usar, verá que até terá prazer em “vestir-se bem” todos os dias.
O mesmo para o calçado, há cada vez mais alternativas cómodas e com bom aspeto, muitas delas feitas até a pensar em idosos.
Atenção, não sou fã da ideia de “roupa apropriada à idade”, acho que cada um deve vestir-se como lhe agrada. E se prefere peças feitas a pensar em idades mais “verdes”, que mal tem isso? A questão principal é que as tenha escolhido porque gosta e não numa tentativa desesperada de se agarrar à juventude.
Temos também o visual. Para muitos, envelhecer é, infelizmente, um drama. E a indústria cosmética e de cirurgia plástica bem o sabem, é só vermos os inúmeros anúncios a produtos para manter a juventude ou, melhor ainda, para a recuperar!
Em vez desta ênfase em mantermo-nos jovens, seria bem melhor aprendermos a aceitar a beleza de todas as fases da nossa vida – e, como referi no meu post Como os idosos se veem, há até muitas pessoas que se tornam mais atraentes ao envelhecer.
Também aqui devemos evitar o oito ou oitenta, arranjar cara e cabelo como o fazemos há anos ou deixar totalmente de cuidar de nós. O equilíbrio está em experimentar o que fica bem à nossa “nova” cara e, já agora, que não custe muito a manter...
Um dos problemas em relação aos mais idosos é que não aprenderam, na sua maioria, a relaxar, a mimarem-se. E, francamente, nem sei quem é mais afetado por isso, se homens ou mulheres. Muitas destas pouco ou nenhum tempo dedicavam a si mesmas, por falta de dinheiro ou excesso de obrigações. E eles... bom, sejamos sinceros, para muitos o único cuidado a ter era uma ida mais ou menos regular a um barbeiro – ei, barbeiro, não cabeleireiro! Tudo o resto não era, digamos, muito “masculino”.
Felizmente as coisas têm estado a mudar e já há muitos “não novos” a frequentarem spas, não propriamente para tratamentos de beleza mas mais em termos de massagens e outros processos que ajudam a descontrair e a sentirmo-nos melhor. E muitos locais já “espreitaram o furo” e têm propostas destinadas a quem está na chamada idade dourada.
Também cabeleiros e especialistas em unhas começaram a ver que há potenciais clientes que não frequentam os seus estabelecimentos porque lhes é difícil deslocarem-se, por problemas físicos ou de transporte e começaram a oferecer serviços ao domicílio. Procure na sua zona, poderá ter uma surpresa agradável. Ou, caso não exista esse serviço, que tal contactar os locais aí existentes e sugerir que passem a tê-lo?
O importante é, também aqui, criar uma rotina para os seus cuidados pessoais. Já agora, se tem casa própria, vá pensando em mudar a banheira para um chuveiro, pode fazer toda a diferença na sua disposição para cuidar de si – ainda por cima, nunca fomos exatamente um país fã de banhos de imersão.
Crie um horário – não rígido, claro – para os cuidados básicos e, acima de tudo, force-se a vestir algo agradável todos os dias, quer tenha ou não de sair. Se é daquela geração antiga em que se dizia que se devia usar sempre roupa interior limpa e boa quando se saía, “para o caso de acontecer algo”, bom, converta esse conselho em estar arranjada em casa “porque nunca se sabe”...
Mas faça o que fizer, evite passar o dia todo com a roupa com que dormiu, lavando-se “à gato” e sem sequer se pentear. É que uma vez, tudo bem, todos temos daqueles dias em que não apetece fazer nada. Só que é muito fácil esse dia passar a dois, os dois a uma semana, esta a um mês... É a tal “rampa escorregadia” tão do agrado dos americanos!
Para a semana: Uma sociedade não preparada. Apesar de tanta conversa sobre o envelhecimento da população, não estamos preparados para isso.