15 - Refeições para um
Como referi em posts anteriores, uma boa alimentação é indispensável a uma boa velhice, ou antes, a um “ir para novo” saudável. Mas nem sempre é o caso e não por razões económicas – como também referi, há inúmeros apoios para pessoas idosas sem posses, teremos é de garantir, como sociedade, que estão a par da sua existência e que os recebem.
Para não me estar a repetir, recomendo a leitura (releitura) do meu post Comer bem vale a pena. Assim falarei aqui sobretudo de truques, digamos, não mencionados anteriormente.
Para começar, relembro que disse que congelador e micro-ondas podem ser os nossos melhores amigos. A estes junto um dispositivo para cozer a vapor. Tenho um de duas camadas, em silicone e com tampa no “andar” de cima. É similar aos de bambu da cozinha chinesa, mas mais fácil de lavar. Não é barato, mas dura imenso tempo.
E é extremamente útil. Uso-o para cozer vegetais – recordo aqui o que disse sobre vegetais congelados – e peixe, por exemplo. Ficam bem mais saborosos e os nutrientes que contêm não se perdem na água. Só não o uso para batata, curiosamente não gosto do resultado. Mas com casca, perfurada várias vezes, fica ótima no micro-ondas – atenção, se lhe der tempo a mais, começa a endurecer de fora para dentro!
Também é muito útil para aquecer arroz. Deste modo, posso fazer uma dose maior, congelar o que sobra em porções individuais e, quando preciso, basta tirar uma, descongelar, espalhar no dito equipamento e aquecer. E quando compro (ou faço) pataniscas, também ficam ótimas aquecidas ali.
Já agora, pasteis de bacalhau e similares ficam excelentes se forem aquecidos 10 a 20 segundos no micro-ondas.
A ideia básica é fazer comida a mais e congelar o restante – sempre em porções individuais – para as muitas vezes em que não apetece cozinhar. Já agora, convém ter uma lista atualizada do que se tem no congelador. Isto tem duas vantagens, por um lado permiti-nos ver o que nos apetecerá comer no dia seguinte, por outro, colmatar as “falhas”. Já agora, na minha experiência, batata não congela bem, talvez seja melhor ter isso em conta quando planeia refeições para sobrarem. Mas se for carne guisada, por exemplo, guise-a e, antes de juntar a batata, retire o “excesso” – da próxima vez, basta acrescentar a dita.
E que tal uma sopinha ao jantar? Mais uma vez, em vez de uma porção minúscula, faça uma boa dose. Na geleira dura bem uns três dias. Ou, melhor ainda, já que está a cozinhar, faça duas diferentes (ou mais) e congele-as em doses individuais devidamente identificadas – assim pode ir variando durante vários dias.
A fruta pode ser outro problema. A menos que se coma muita diariamente, acaba-se por não ter grande variedade. Pois bem, uma taça de salada de fruta, coberta de película aderente, dura 3 a 4 dias na geleira. Poderá assim misturar fruta à sua vontade!
Pão também congela muito bem e é sempre útil ter algum de reserva, mesmo quando se gosta de um pãozinho fresquinho... É que às vezes o tempo está péssimo ou não apetece mesmo sair do “quentinho” e, assim, não se fica sem ele. E, repito, é ótimo, sobretudo se for congelado logo (mas não quente). E se não o achar muito fofinho, torre-o ou meta-o uns segundos no micro-ondas – já agora, pode fazer o mesmo caso se tenha esquecido de o descongelar, mas não ligue ao tempo proposto, ponha um minuto, verifique, ponha mais tempo, volte a ver.
Se gosta de comida de restaurante mas pertence à geração que acha que não fica bem uma mulher ir sozinha a um sítio desses, bom, há cada vez mais sítios com comida para fora, graças à pandemia. E, muito francamente, há coisas que não dá mesmo jeito fazer para uma pessoa ou até para duas, como um cozido ou uma boa feijoada...
Já agora, uma “arte” muito útil para quem vive sozinha é o aproveitamento de restos. Há coisas que não se podem modificar, claro, mas há muitas outras que, com um pouco de imaginação, dão um prato totalmente diferente.
Peixe assado no forno, por exemplo. Sim, é algo que se evita fazer quando se está só, a menos que se tenha um bom apetite. Mas não há razão para isso. Junte apenas as batatas para uma refeição e depois aproveite o peixe que sobrar. Pode guardar o “molho”, que dá uma ótima base para um arroz, e o resto do peixe (sem espinhas, depois de frio são mais difíceis de tirar) e usá-lo no mesmo arroz. Ou, separadamente, numa boa açorda.
Sobrou frango ou outra carne, mas não em quantidade suficiente? Pois bem, junte-o a massa cozida (fusili ou outra deste género, de preferência) num wok ou frigideira e pronto! Pode até juntar alguns legumes para uma refeição mais completa.
E há sempre a hipótese de uma tortilha. Sabia que as pode fazer no micro-ondas? Com a vantagem de usar menos gordura... Só tem de ir pondo pouco tempo de cada vez no início ou terá ovo por todo o lado.
Já agora, experimente ver os muitos programas de culinária sob outro prisma. Quando assiste a uma receita, tente imaginar como a pode adaptar a um aproveitamento de restos, por exemplo. Faça o mesmo quando vai a um loja ou supermercado, olhe para enlatados, congelados e similares sob o ponto de vista de como lhe poderiam facilitar a vida e dar mais variedade. E não se preocupe se não gostar do que comprou, pela minha experiência, enlatados e não só dependem muito do gosto de cada um, vá tentando até encontrar um a seu gosto.
E para peixe, por exemplo, há lojas de congelados que têm artigos não usuais em muitos supermercados. Ontem comprei, por exemplo, filetes de dourada e de robalo, embalados individualmente. E havia também peixe-espada e muitas outras variedades, tudo em porções pequenas, ideais para quem vive sozinho.
E quanto à carne, não se acanhe, mesmo com “doses” grandes. Pode muito bem comprar porco para assar, fazê-lo todo, fatiá-lo em porções e pronto, aí tem várias refeições! Já agora, se tem uma panela de ferro das que vão ao forno, que tal tentar fazer assados em “lume lento”? Ficam saborosos e tenros e, já que vai ter o trabalho, mais vale ter o proveito! O mais importante é decidir, quando compra a carne, se é melhor cozinhá-la toda e congelá-la depois em doses individuais ou se é do tipo que é preferível dividir e congelar para ir cozinhando aos poucos.
Resumindo, quase tudo pode ser adaptado a quem vive sozinho, basta um pouco de imaginação. E, acredite, se não tiver de cozinhar todos os dias para comer bem, quando o fizer sentirá novamente o prazer de criar algo.
Para a semana: Velhos não são descartáveis – Uma variante de “velhos não são lixo”, mais adaptada à nossa sociedade de reciclagem.